Fernando Molica: O sistema que nos reconhece

Seria até engraçado se essa lógica do Facebook fosse aplicada à vida pública

Por O Dia

Rio - Como não costumo postar fotos em redes sociais, tomei um susto quando, semana passada, publiquei dezenas delas no meu perfil — imagens de um evento em que havia muitos e muitos amigos. Para minha surpresa, o próprio Facebook tratou de identificar várias das pessoas na medida em que as fotos iam sendo baixadas. Um processo muito bem feito, quase sem erros — a Eliane virou Dáurea, o Wilson não era o Wilson, mas, fora isso, a maioria dos convidados foi devidamente catalogada de forma automática.

Sei não, mas esse negócio é muito complicado, esquisito e assustador. Demonstra que os caras criaram um complexo sistema de comparação de imagens, um banco de dados que arquiva rostos e é capaz de identificá-los em outras fotos. Não sei qual foi a abrangência da busca, é provável que o sistema tenha se limitado a fazer uma varredura nos perfis daqueles que estão cadastrados como meus amigos no Facebook. Mas, mesmo assim, é muita gente, cinco mil pessoas. Nenhum ser humano seria capaz de comparar, em poucos segundos, imagens de tantas pessoas.

O negócio é muito mais sofisticado que os mecanismos de busca de textos — afinal, uma mesma pessoa aparece de diferentes maneiras em fotos, nossas fisionomias mudam por conta do envelhecimento e de fatores como corte de cabelo, luminosidade da cena, uso de óculos ou de barba. Mas o Facebook conseguiu: e só foi capaz de fazer isso com a nossa ajuda, já que nós é que fornecemos à rede nossos dados, nossas imagens, nossas selfies, os nomes dos nosso amigos e filhos — somos cúmplices daqueles que nos vigiam, vá entender. E se uma rede acessível a todos consegue isso tudo, imagine o que não são capazes de fazer os computadores de exércitos e de serviços de inteligência/espionagem. Lembrei até daquela canção do Sting, ‘Every BreathYou Take’, em que um apaixonado diz que estará vigiando cada suspiro, cada passo e cada movimento da amada: “I'll be watching you”, “Eu estarei te observando”, ameaça.

Seria engraçado se essa lógica do Facebook, de recuperação imediata da memória, fosse aplicada à vida pública. Adoraria ver se o sistema reconheceria diversos líderes governistas que, outrora, defendiam uma política mais transparente e honesta. O mesmo valeria para muitos integrantes da oposição, aqueles que, fingindo ignorar o que fizeram num passado recente, enchem a boca para atacar a corrupção alheia. É provável que nem os melhores programas de computador fossem capazes de detectar tanta mudança e tanta cara de pau.


E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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