Nelson Vasconcelos: Tudo tem seu limite...

A desagregação econômica e social tem feito NY perder o que existe de melhor numa cidade: o compartilhamento de experiências, de ideias, de prazeres

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - Gosto de palavrões. Gentrificação, por exemplo. É um termo mais ou menos recente no nosso vocabulário, embora o Rio esteja “sendo gentrificado” há algum tempo. Muito resumidamente, trata-se do processo de revitalização e supervalorização de determinada área urbana, implicando a ‘expulsão’ de seus moradores na base do aumento de aluguéis e impostos, tornando impraticável sua permanência no local.

Assim, grupos inteiros têm que se mudar para regiões ‘menos nobres’ por conta da especulação imobiliária. É uma questão séria, que pode acirrar ou criar conflitos sociais. Um livro que acaba de sair por aqui nos ajuda a entender como a gentrificação muda o cotidiano de toda uma população. ‘Histórias de duas cidade’s trata de um lugar aparentemente incrível, aprazível, maravilhoso — mas que, de perto, não é bem assim. Parece até o Rio, mas é Nova York.

Como toda grande cidade, NY sofre de inúmeras agruras, como lemos nos 27 textos que compõem o livro. Sua mensagem básica nos cai muito bem: se a gente não pensar no bem-estar de todos, vai ficar ruim para todo mundo. Uma cidade dividida entre ricos e pobres só pode dar problemas. A gente sabe disso, mas não busca a mudança. Em NY, ao menos há gente trabalhando duro, por exemplo, para diminuir o aluguel médio, que, entre 2002 e 2012, aumentou 75%, e o surgimento de guetos. Dois assuntos bem íntimos do carioca, ou não?

A desagregação econômica e social tem feito NY perder o que existe de melhor numa cidade: o compartilhamento de experiências, de ideias, de prazeres. O organizador do livro, John Freeman, considera que a situação por lá já é insustentável. O colaborador cult David Byrne faz o alerta: bairros inteiros para uso somente dos ricos inviabilizam a produção criativa. Mas os ricos não ligam para isso, reforça o ótimo Garnette Cadogan, que conhece bastante o abismo que existe entre os poucos quarteirões que ligam o super-ricofashion Upper East Side ao South Bronx, de população mais pobre. Conhecemos bem esse cenário, e a história não costuma acabar bem. 

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