Eugênio Cunha: Sociedade de informação e consumo

Saúde, educação, segurança, transporte deixaram de ser direitos do cidadão e passaram ser privilégios

Por O Dia

Rio - Em tempos de crise, ainda há tempo para comprar. Em alguns casos, é muito mais uma necessidade que uma opção. Não temos escolhas, precisamos consumir se quisermos sobreviver no mundo capitalista. Saúde, educação, segurança, transporte deixaram de ser direitos do cidadão e passaram ser privilégios para quem quer ter uma vida cidadã.

Por outro lado, há também uma cultura mercantil que se estabeleceu em nosso cotidiano, que utiliza diferentes mídias para transformar comunicação em persuasão. O objetivo, além de informar, é o de divulgar o produto para atender diversos interesses, nos quais a matéria-prima vai deixando de ser a necessidade para passar a ser o desejo.

Por isso, ainda compramos muito. É claro que em períodos de recessão selecionamos mais e também nos angustiamos mais; não pela falta de opções, mas porque precisamos fazer escolhas que nos levará a perder. É inegável que essa dialética faz destilar nossa humanidade comum e controversa, trespassada pela identidade social. Isso só é possível, porque grande parte de nossas escolhas vincula-se à interferência de uma rede mundial de comunicação; estamos cada vez mais envolvidos em suas preferências, que frequentemente aceitamos para nós.

Temos uma relação pessoal com as mídias. Podemos ser anunciantes para vender nossos produtos, artistas para disponibilizar conteúdos criados por nós ou apenas audiência - ou usuários no caso da internet - mas somos sempre seus consumidores. A força dessa relação é medida pelo poder de interação que existe. Quanto maior a interação, maior será o poder. Há uma convergência de interesses que constitui uma ação recíproca de convivência e dependência.

Bem no princípio, essa reciprocidade era percebida mais claramente por meio do rádio ou da TV, que alguns tinham e outros sentiam falta. Atualmente, são muitas as mídias em distintos formatos. Precisamos delas para inúmeras atividades diárias: desde uma simples consulta meteorológica a uma operação bancária. Seus produtos são inspirados em nossas opiniões. Estão plenamente articuladas com a contemporaneidade. Nós criamos a sociedade de informação e consumo; inevitavelmente já não podemos prescindir dela.

Eugênio Cunha é professor e jornalista

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