Milton Cunha: No reino do gumex

Para mostrar que está no comando,bastaram sete horas para que Ele nos desse exemplo de seu bom humor

Por O Dia

Rio - Eu nunca os tinha visto reunidos, com cada um tendo 30 segundos para formar frase. Como a oportunidade era imperdível, me prostrei diante da TV para ver como eram, como se comportariam, como se vestiam os deputados que representam a diversidade de um Brasil enorme. Sempre adorei a hora do traje típico e achei que faltaram o pescador das jangadas do Ceará, o seringueiro do Acre, o bugre pantaneiro de Mato Grosso, o tropeiro das Minas Gerais, as bombachas dos pampas. Neste quesito, uma chatice, só sobraram sotaques que dão alguma pista da região. Sobram paletó e cabelo penteado em goma brilhosa, muita loura oxigenada, nenhum turbante afro, nenhum cocar, muita esquisitice do padronizado mundo deles. Previsíveis e repetitivos, com pouquíssimos surpreendendo nem que fosse com um chapéu, mesmo comportado.

Na hora de formar as frases, emocionados, nervosos, eles partiam para reminiscências pessoais. Votavam pelos que amavam em casa e nos currais eleitorais. Falavam das cidades, porque nas próximas eleições os eleitores disso lembrarão: “Nossa cidade foi lembrada na enorme audiência daquela data”. Depois (ou antes) invocavam o Deus deles. Muito Deus que protegesse, ou se apiedasse, ou misericórdia tivesse. É o Deus dos vendilhões do templo, aquele que é invocado até pelos que vivem em crime. Desde criança sempre ouvi gente clamando por este Deus, quietinho e fazendo cara de santo em público, e cometendo atrocidades por baixo dos panos.

Mas basta comungar, ou arrepender-se, ou se comportar e não passar recibo, que tá tudo certo. Deus da hipocrisia, dizei-me vós, Senhor Deus, se é mentira, se é verdade tanto horror perante os céus? A nação publica no facebook: “Deus no comando”. Então tá, quando até Eduardo Cunha invoca o comandante e manda que ele tenha piedade de nossa nação, resta saber que comando? Que Deus, caras pálidas? Pastores, fervorosos pais de família cristã, bancada da bala, dos ruralistas, a Tia Eron que ama muito aquilo tudo, enfim, foi muita gente invocando Deus.

E, só para mostrar aos incrédulos, como eu, que Ele está no comando, bastaram sete horas para que Ele nos desse exemplo de seu bom humor: o marido da Raquel Muniz (penteado em laquê topete “sou rica” e gola abotoada afogando o pescoço “sou casta”) a quem ela oferecia em bandeja como exemplo para o futuro do Brasil que vai dar certo (também citou a mãe Elza, nome que na gíria das bichas, “dar a Elza”, significa surrupiar) foi preso. Mico dos micos. Foi a noite em que o veado cuspiu na família, tradição e propriedade, que com força segurava seu braço e o ofendia, depois que dedicou seu voto a temido torturador morto!

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