Por adriano.araujo

Rio - Em minhas andanças pelo Brasil, ministrando palestras e dando consultorias a gestores educacionais, tenho descoberto coisas e ouvido histórias que me fazem pensar sobre concepções que tornamos verdades sem antes refletir sobre a lógica do processo. Uma questão que me chama atenção é sobre como reduzimos nosso nível de exigência e nossas expectativas a respeito do trabalho e da capacidade das pessoas. Parece-me um movimento automático e inconsciente que nos leva a acreditar que obrigações são passíveis de prêmio quando são simplesmente cumpridas (como de fato devem ser!).

Os critérios de avaliação de alguns gestores para definir um bom professor me fazem pensar sobre o tema. Fiz uma rápida pesquisa com cerca de cinquenta gestores escolares de oito estados, perguntando-lhes, dentre outras coisas, quais as principais características de um bom professor. Causou-me espanto o destaque e a frequência de critérios complementares, dissociados da principal atribuição de um professor que é promover aprendizagens. Para minha surpresa, aspectos como pontualidade na entrega de notas, manter o diário de classe em dia e não se atrasar e não faltar às aulas foram mais valorizados do que usar metodologias interativas ou avaliar de forma mediadora.

Esse resultado me remeteu a uma outra constatação obtida a tempos atrás sobre que características os professores identificam em si mesmos que os fazem bons profissionais. Os resultados coincidem. Os professores se julgam bons por cumprirem suas obrigações burocráticas, não faltarem, não se atrasarem e por se sentirem gostados pelos alunos. Lembro-me de uma gestora descrevendo dilema com relação a uma professora que não teve seu pedido de mudança de horário atendido, dizendo “Fico chateada em não a atender porque ela não falta e entrega tudo em dia!”. Fica claro que transformamos simples obrigações em comportamentos dignos de premiação.

Assistindo a sessão da Câmara do impeachment da presidente Dilma, pude compreender melhor esse fenômeno. A julgar pelo nível cultural médio e pela ficha de nossos parlamentares, ser honesto, ter ficha limpa e falar corretamente definem um ótimo deputado no Brasil. Vivemos em terra de cegos.

Júlio Furtado é professor e escritor

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