Por cadu.bruno

Não sei quem me apresentou a Siné (1928-2016) quando ele desembarcou no Rio. Afinal, já se passaram 48 anos. Acho que foi o adido cultural da embaixada francesa. A atmosfera irrespirável (para ele) da França de De Gaulle trouxe-o ao Brasil. Fugiu às pressas, sem nada no bolso, como na canção de Caetano. O motivo? Juntou-se aos estudantes, nas barricadas da ‘Chienlit’, em 1968. Da noite para o dia transformou-se, de um dos desenhistas de mais sucesso na França, num desempregado, depois que sua revista, ‘L’enragé’, foi interditada pelo governo e passou a ser distribuída nas ruas de Paris pelos estudantes.

A fera esperava cuidar suas feridas no mormaço dos trópicos. Imagina a sua surpresa ao desembarcar justamente no dia de uma passeata. Tivemos que correr para escapar das bordoadas. “Não tive tempo de apreciar a paisagem”, escreveu para seu jornaleco, ‘L’Énragé’, por causa dos gases lacrimogêneos. Ênio Silveira, dono da Editora Civilização Brasileira, topou lançar um livro, SINÉ & CIA, ciente dos riscos que corria. A ideia era fazer uma série de desenhos ilustrando palavras que tivessem CIA, como GERÊN CIA, SUPLI CIA DO, EFERVESCÊN CIA, quase cem, que pesquisei no dicionário.

Fiquei pasmo com a sua criatividade; em menos de uma semana fez todas as ilustrações. Levava um bloco para a Praia de Ipanema e desenhava enquanto enchia a cara de caipirinhas e fumava sem parar cigarrilhas Talvis, que encontrei para substituir seus fedorentos Gauloises. Dedicatória do livro: “Ao Tio Sam, com toda a minha antipatia”.

Esses desenhos foram expostos numa galeria de pintura (convidado pelos donos da galeria mais pela sua fama, não sabiam o quanto era subversivo). Até um paralelepípedo de Paris que os estudantes arrancaram do chão para jogar nos policiais, autografado por Siné, foi posto num pedestal, como uma escultura.

Resultado, foi vetado pela galeria, assim como alguns desenhos mais pesados. Furioso, Siné, recolheu os desenhos, e a vernissage acabou antes da chegada dos convidados (e da polícia). Botamos os desenhos no meu jipe e fomos para um show da Rogéria na Lapa. Na confusão, esquecemos o paralelepípedo. Rogéria, que era minha amiga, dedicou o show a ele, com direito a sentar no colo. Adorou: “Em Paris, os travestis são deprimidos e feios. E a Rogéria é uma das maiores cantores que já ouvi!” Siné sabia do que falava: começou sua carreira como cantor do grupo ‘Les garçons de la rue’.

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