Ricardo Cravo Albin: Paz e guerra

Título acima do romance universal de Leon Tolstoi pode ser exagerado para situação exacerbada que vivemos no Brasil

Por O Dia

Rio - O título (acima) do romance universal do russo Leon Tolstoi pode ser exagerado para a situação de exacerbação que vivemos estes dias no Brasil. Pode, e é. Mas me sirvo da parafrase, do quase absurdo, do absolutamente indesejável, para reforçar aquilo de que o país mais carece, a paz. Ou seja, a paciência dos que perderam a Presidência e a sabedoria dos que agora a assumem. Abstenho-me de entrar no mérito do impeachment. O que quero é realçar a tese.

O curso da História de todos os países, aí incluindo o Brasil, exibiu sempre uma verdade: as perdas foram maiores que ganhos, em meio ao alarido suicida do embate mercurial de grupos que se opõem. O corpo a corpo, a intromissão na integridade do indivíduo, de um que seja, provoca a perversão da paz, no que ela abriga de mais elementar e a ser curatelado por todos. Fala-se aqui ou acolá que movimentos sociais sairão às ruas e aos campos para protestar e inviabilizar o novo presidente. Comenta-se daqui e dali que o governo recém-empossado se armará de todos os meios para assegurar sua integridade. Uma guerra fratricida pode se esboçar.

Um dos melhores e mais sábios filhos desta nossa terra de vocação pacífica, o mestre Darcy Ribeiro, afirmou certa vez – e eu ouvi – que o enfrentamento físico por ideais era a fogueira dentro da qual crepitavam a burrice, a falta de razão, o desterro da possibilidade de união, mesmo futura. A guerra é a aberração. A paz, seu contrário. Darcy liberava seu pensamento em frase desabrida, quase canônica: “Os que se enfrentam como dragões da carochinha, projetando labaredas de fogo pelas ventas, são uns cagões. E uns desavisados do perigo e da merda que podem provocar.”

Tudo isso vem a propósito dos murmúrios nas veredas do governo e da oposição. Esta, rugindo incendiar o país. Aquele, vociferando uma defesa com Forças Armadas. Meu Deus, eu já vi este filme. De conseqüências trágicas para ambos os lados. Afinal, mesmo na exaltação do momento de perda, mesmo na euforia da jactância do ganho, os contendores devem baixar a crista. E recolher seus esporões. Em briga de galos ambos saem gravemente feridos. Só ganham os que apostam nos brigões. São eles precisamente os exploradores do povo, os sem-comiseração, os sanguessugas.

Ricardo Cravo Albin é presidente do Instituto Cultural Cravo Albin

Últimas de Opinião