Siro Darlan: Nise, a psiquiatra do afeto

Ela, que sofreu preconceito por sua condição de nordestina, mulher, comunista e rebelde, impôs sua medicina de libertação pelas artes

Por O Dia

Rio - Em 1779 um grupo de cinco estudantes brasileiros foi preso em Coimbra, após terem sido delatados por críticas à “hipocrisia dos frades” e ao “governo dos povos e das religiões”. Isso por ordem do inquisidor. Séculos depois quatro jovens magistrados estão sendo processados por defender em lugar público a democracia e a Constituição, que juraram cumprir e fazer respeitar.

O TJ de São Paulo apressou-se para esclarecer que uma magistrada que visitou o Papa Francisco em Roma o fizera em nome próprio, como se não fosse uma honra a qualquer tribunal ter um de seus membros recebido pelo Pontífice. Em 1905, nasceu em Maceió a psiquiatra Nise da Silveira que trouxe o afeto e sensibilidade do sertão onde nasceu para revolucionar a psiquiatria no Brasil.

O que esses fatos têm em comum? Eles demonstram que o bom combate à estupidez das instituições exige persistência, denodo e coragem. Tanto os jovens estudantes de Coimbra, quanto os magistrados e a rebeldia de Nise da Silveira custaram muito caro para eles.

Nise, tatuada como comunista, ficou anos presa até rebelar-se contra métodos desumanos aplicados até então aos pacientes psiquiátricos, tais como a lobotomia, o eletrochoque, entre outros. Tendo sofrido preconceito por sua condição de nordestina, mulher, comunista e rebelde, impôs sua medicina de libertação pelas artes.

A Dra. Nise da Silveira, cuja vida está sendo retratada no cinema pela mente sensível e magistral do cineasta Roberto Berliner, com o protagonismo da excelente Gloria Pires, é uma história para se assistir, debater e refletir sobre a esquizofrenia que toma conta de nossa sociedade, onde a intolerância e a violência são as marcas que relembram os pseudocientistas que pretendiam curar através da dor e extirpação dos sentimentos. Nise optou pelo tratamento da inclusão.

Nise superou o preconceito e a insensibilidade dos colegas aplicando métodos inclusivos de afeto e humanismo. Abraçou-os não apenas com sua luz singular e imensa paixão pela vida, mas por sua vasta cultura e imenso respeito ao próximo. Através de seu espírito aberto e generoso toda essa produção que era ocultada pelos métodos utilizados foi revelada, colocando em dúvida os conceitos que delimitam a loucura e a razão.

Siro Darlan é juiz do TJ e membro da Associação Juízes para a Democracia

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