Eugênio Cunha: Uma escola, uma orquestra

Alunos aprendem individualmente, porque trazem a demanda da aprendizagem coletiva compartilhada

Por O Dia

Rio -De quando em vez, procuro uma imagem que represente os movimentos de ensino e aprendizagem que deveriam existir em todas as escolas. Recorro-me comumente a Paulo Freire, que me avisa que o bom ensino não deve ter a rigidez bancária de apenas transferir conhecimento. Também me vem à memória Rubem Alves, para qual uma boa aula tem que ter o tempero de uma gostosa comida que se deseja muito comer.

Inspirado por essas figuras, tento ver a educação escolar como uma orquestra em execução. Mas por quê? Hoje, numa sociedade de informação, o acesso ao conhecimento tornou-se mais democrático. É a tendência da contemporaneidade. Alunos aprendem individualmente, porque trazem a demanda da aprendizagem coletiva compartilhada. O que ocorre é um movimento com a articulação de atores, com produções individuais, mas fazendo múltiplas conexões com o mundo, como instrumentos que seguem os compassos da música, cada um em sua autonomia, exercendo a coletividade.

Os percursos melódicos do violino, por exemplo, seguem sua peculiaridade, distanciando-se e opondo-se ao som circunspecto, suplicante, quase oracular, do violoncelo. Metais parecem querer dominar com alarido e clangor os espaços, mas são contidos pela manifestação pontual e criativa do tímpano, da caixa, do bumbo e dos pratos que enriquecem e dinamizam o compasso. Todos expressam a condição de que ninguém detém sozinho o domínio do saber musical, mas o compartilham, fazendo parte do processo criativo da execução, interagido e comunicado.

Se por analogia podemos exemplificar processos sociais e afetivos da coletivização do conhecimento, onde estaria na orquestra a figura do professor? A julgar pelas palavras de Freire — nas quais o professor não ocupa isoladamente o centro da educação, pois educar não é ato solitário — a figura docente não estaria na pessoa do maestro. E onde estaria? Creio que na pulsação da música... talvez no bumbo, que é fundamental para fazer pungir o tema, que permite a dinâmica, que mantém o ritmo, o tempo, no qual cada músico expressa com segurança e independência a sua individualidade e inteligência coletiva. E que imagem representaria o maestro? O sonho e o desejo. Todos olham para eles.

Eugênio Cunha é professor e jornalista

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