Jaguar: Um velório do arromba

Sou de Xangô, eu me sinto péssimo em cemitérios

Por O Dia

Rio -  A última vez que fui a um enterro foi no século passado, em 1998, quando mataram meu amigo Paulinho de Andrade, filho do Castor. Sou de Xangô, eu me sinto péssimo em cemitérios. Saí de lá um molambo, imprestável para o resto do dia, e disse, como o corvo de Poe: “Nunca mais!” Segui o cortejo ao lado de Fernando Pamplona (que já se foi) pelos tortuosos caminhos do São João Batista, aquela favela de mármore, sob um sol de rachar.

“Quando era moleque, morava aqui ao lado”, evocou Pamplona. “Às vezes, a bola era chutada para dentro do cemitério. No começo, dava um friozinho na espinha para apanhá-la, mas acabamos nos acostumando. Aí, pulávamos o muro para roubar fruta. Isso aqui era uma beleza, cheio de passarinhos, arborizado, tinha muito pé de sapoti e de jambo. Nunca vi jambos tão grandes. Pudera, um terreno adubado como este... O cemitério era o nosso play.”

“Cadê as árvores?”, perguntei. As poucas sombras ali eram em forma de cruz. “Derrubaram para fazer mais jazigos. As alamedas pareciam avenidas, de tão largas.Construíram quadras entre as que existiam, ficaram esses caminhos de rato onde a gente se espreme para acompanhar enterros.”

Coitado do Rio,onde a especulação imobiliária degradou não só a qualidade de vida, mas as de morte também. Enquanto cortejo serpenteava morro acima pelo São João Batista, lembrei-me, como sempre acontece quando passo por lá, do velório do Hugo Bidet, em 1977. A Banda de Ipanema compareceu em peso para o adeus, uns mais, outros menos bêbados. Lívido, olhar esgazeado, rangendo os dentes, Ronald de Chevalier, o lendário Roniquito, com a queixada projetada para a frente, como a quilha de um destróier, espumando pela boca, cambaleava, siderado de dor, pelos corredores. A certa altura entrou numa das capelas, onde a família e os amigos pranteavam seu ente querido. “Estão chorando por quê, seus babacas?”, vociferou. “O morto de vocês é um bundão, um defunto de merda, não chega aos pés do nosso!” Como acontecia dia sim e outro também, entrou na porrada. No tumulto, o caixão por pouco não caiu no chão. Só não houve linchamento porque foi resgatado a tempo pela segurança do furor, diga-se de passagem justíssimo, dos familiares do morto. Com a roupa rasgada e todo machucado, acompanhou o féretro até a última morada do Bidet. Depois fomos todos tomar um porre no Degrau, onde nosso companheiro ficou esculhambando tudo e todos até desmaiar.

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