Dimas Gadelha: A política não pode atropelar a ciência

Hoje, dependendo da rapidez com que um tumor é diagnosticado, em alguns casos as chances de cura são totais

Por O Dia

Rio - Não há como negar os avanços da Medicina na luta contra o câncer nas quatro últimas décadas. O progresso das pesquisas proporcionou melhor qualidade de vida e maior longevidade a milhões de pacientes no Brasil e no mundo. Hoje, dependendo da rapidez com que um tumor é diagnosticado, em alguns casos as chances de cura são totais.

E esses avanços se deveram a anos de estudos e a uso de novas técnicas e tecnologias. Portanto, todas as novas pesquisas que apontem caminhos para o combate à doença são bem-vindas. Mas qualquer medicamento produzido nessa fase só poderá ser administrado depois de comprovada cientificamente a sua eficácia. E isso foi exatamente o que não aconteceu com a substância fosfoetanolamina, desenvolvida em uma universidade de São Paulo, conhecida como a “pílula do câncer”.

O amplo debate nacional que sucedeu acabou opondo ciência e política. Alardeada de início como a cura para o câncer, a pílula, desenvolvida por um professor aposentado e sua equipe, rapidamente causou um clamor em todo o país. A pressão popular fez com que o Congresso a aprovasse e sua distribuição fosse sancionada pela presidente da República, mesmo sem autorização do órgão máximo de fiscalização de saúde, a Anvisa.

Felizmente, tal decisão foi suspensa pelo Supremo Tribunal Federal, que atendeu aos apelos da comunidade científica. Agora, graças a resultados de exames recentes feitos a pedido do governo federal, viu-se que a decisão foi acertada. A pílula do câncer foi mais uma vez reprovada em testes feitos com camundongos.

Como médico, sempre nos posicionamos contrários a qualquer medicação sem evidência científica. Mais grave ainda quando se trata de uma única pílula para qualquer câncer, como neste caso, em razão da complexidade e vários tipos histológicos da doença. Como gestor público de saúde, a responsabilidade ainda é maior.

Em meio às pressões, temos que ter o discernimento suficiente para não agirmos por impulso e gastar recursos em tratamentos duvidosos, que, além de tudo, vão pôr em risco a já combalida saúde de quem recorre à rede pública. Ótimo que brasileiros estejam à frente de nova pesquisa contra o câncer. Mas é preciso que esses estudos avancem por si só e não sejam atropelados pelo imediatismo do interesse político.

Dimas Gadelha é médico sanitarista

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