Edson Zanata: Enterro no Rio: Escolha seu dia para morrer

É preciso ser rápido, pois as vagas são raras e costumam acabar assim que são liberadas

Por O Dia

Rio - Vivemos tempos difíceis e insólitos. No Rio de Janeiro, por exemplo, temos que escolher um dia para morrer. Para que ocorra um enterro nos cemitérios privatizados da cidade, é preciso que haja uma exumação. Significa que só entra um corpo se sair outro. É preciso ser rápido, pois as vagas são raras e costumam acabar assim que são liberadas, através de um controle por sistema de computador.

Outro detalhe curioso é que a concessionária cobra uma taxa para esse procedimento, que só vai ocorrer três anos depois do sepultamento! Enquanto isso, centenas de famílias amargam dias de dor e sofrimento, pois os corpos de seus entes queridos ficam nas geladeiras dos hospitais ou do Instituto Médico-Legal.

O prefeito Eduardo Paes cobra, através de resolução, que as empresas Rio Pax e o grupo Reviver — administradoras dos 13 cemitérios — reservem 14 mil vagas para sepultamento. No entanto, foram citados apenas os cemitérios do Caju e de Inhaúma.

E como vão ficar os demais, no Murundu (Realengo), Paquetá, Santa Cruz, Ricardo de Albuquerque, Guaratiba e da Cacuia (Ilha), São João Batista, Jacarepaguá, Irajá, Campo Grande e Piabas (Vargem Grande)? É uma desumanidade com que se foi e com quem fica. Espero que isso se estenda aos outros cemitérios.

Considero louvável a determinação de que, se as empresas não conseguirem uma vaga para sepultamento no prazo de 10 dias, terão que pagar multa diária de R$ 3,7 mil. Não é raro ouvir relatos de famílias forçadas a sepultar seus mortos em locais muito distantes de suas casas, depois de muita dificuldade. Eu mesmo acompanhei de perto o sofrimento de uma família, que só conseguiu enterrar o corpo do parente após três dias de peregrinação por funerárias.

Apresentamos requerimento de informação na prefeitura para tentar saber da situação da rede. Queremos saber se existe déficit de vagas, projetos de expansão e plano de contingência para procura acima do normal.

Muitas vezes nos sentimos tão incompetentes com a dor e o sofrimento de uma pessoa que quer simplesmente sepultar seus entes queridos. Quem os perde já está abalado o suficiente, não merece sofrer com um serviço ruim como o atual.

Edson Zanata é vereador pelo PT

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