Jaguar: Abaixo, a tortura

Cada vez que vejo TV me lembro da frase do Sérgio Porto: 'O melhor da televisão é o botão de desligar.'

Por O Dia

Rio - Elke Maravilha não sabe — nos desencontramos há séculos —, mas tenho pensado muito nela. Por causa de uma frase que me disse há uns 40 anos, quando éramos vizinhos no Leme. Quando a gente se esbarrava sempre rolava um papo. Ao saber que nasci em 29 de fevereiro, não rolou a inevitável piada de que só faço anos de quatro em quatro anos. Ela curtia astrologia; me olhou penalizada: “Tadinho, você é de Peixes, vai ter no futuro problemas com os pés.” Dei risada. “‘Pobrema’ com os pés, Elke?” Na época, eu jogava tênis, andava todos os dias, zanzando pelas ruas e bares da cidade, na BIP (Busca Insaciável do Prazer). Disse pra ela mandar a sua bola de cristal para a revisão, devia estar enguiçada. 

Pois é, admito pesaroso que a loura pitonisa estava certa: de uns meses para cá padeço do que os podólogos chamam de calo plantar, maldita calosidade que dá na sola do pé que transforma o elementar direito de ir e vir numa tortura. Não desejo padecimento igual nem ao Cunha (pensando melhor, ele merece nos dois pés). Imagine um calo na parte do pé que se apoia para andar. Sendo que o desgraçado cresce para dentro, e aí é uma dor de lascar a cada passo. O que era prazer — zanzar pelo Leblon, pra ver bundas e cachorros, como dizia Ivan Lessa — virou uma tortura. Aquela pontada a cada passo é como pisar numa pedrinha dentro da meia.

O jeito é passar a maior parte do tempo sentado na poltrona vendo televisão, outra tortura. Destaque especial para a massacrante avalanche das cinco novelas da Globo. Dá uma crônica inteira só para as ‘maledetas’. Aliás, cada vez que vejo TV me lembro da frase do Sérgio Porto: “O melhor da televisão é o botão de desligar.”

Minha dificuldade de andar me evoca o genial Ismael Silva, inventor das escolas de samba e autor de obras primas como ‘Se você jurar’ e ‘ Tristezas não pagam dívidas’. No fim dos anos 70, do bar em frente à antiga redação do DIA, na Riachuelo, eu o via passar mancando como eu. Só que o caso do Ismael era pior: uma úlcera varicosa em uma das pernas que acabou matando o poeta. Para terminar, um regalo: o trecho inicial da letra de ‘Se você jurar’. “Se você jurar/ que me tem amor/ Eu posso me regenerar/ Mas é/ Para fingir, mulher/ A orgia assim não vou deixar.Muito tenho sofrido/ Por minha lealdade/ Agora estou sabido/ Não vou atrás de amizade/ A minha vida é boa/ Não tenho em quem pensar/Por uma coisa à toa/ Não vou me regenerar.”


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