Wadih Damous: Em defesa da Cultura

O violento ato de Michel Temer de acabar com o MinC despertou uma contundente reação de artistas

Por O Dia

Rio - Um dos primeiros atos do governo golpista de Michel Temer foi extinguir o Ministério da Cultura. Governos autoritários, historicamente, sempre agem assim. A censura na época da ditadura procurava agredir e calar a criatividade de nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Geraldo Vandré e tantos outros. Muitos deles foram presos. Obras foram impedidas de circular, e bastava encontrar livros “sediciosos” para justificar o cárcere e o banimento.

A Cultura pressupõe liberdade. Não há criatividade com uma arma apontada na cabeça. No Chile, para consumar o violento golpe de Estado, lançaram-se bombas contra o La Moneda e assassinaram o cantor Victor Jara. Na Espanha, o poeta Federico García Lorca foi morto aos 38 anos pelas forças fascistas.

A música, a poesia, a literatura, a dança e o teatro são instrumentos de expressão poderosíssimos e, por interpretar a realidade através da sensibilidade humana, podem, inclusive, servir de denúncia e contestação. É por isso que golpes, ditadores e golpistas temem — e o trocadilho não é gratuito — sua força.

O violento ato de Michel Temer de acabar com o MinC despertou uma contundente reação de artistas, produtores e servidores públicos em todo o Brasil e fez com que, tempos depois, o interino tivesse que voltar atrás. No entanto, embora frustrada a primeira tentativa, a ação de criminalizar ações de fomento e incentivo à cultura realizados através de políticas públicas e da Lei Rouanet tem sido um forte indicativo do que virá nos próximos anos, caso efetivado o golpe.

Por óbvio, eventuais desvios devem ser apurados, mas não se pode aceitar que o direito à cultura, constitucionalmente assegurado, seja colocado em risco por políticas neoliberais e pelo medo que a arte desperta naqueles que temem o retrato da própria história.

Por fim, como esperança, vale a poesia do cantor Belchior: “Ora, direis ouvir estrelas, certo perdeste o senso. E eu vos direi no entanto: enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não eu canto”.

Wadih Damous é deputado federal pelo PT


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