Marcus Tavares: Sobram direitos e faltam deveres

A sensação é que vivemos realmente numa aldeia, não a global das redes sociais, mas de personas individuais

Por O Dia

Rio - No Brasil, para todos os lados que você olha, a constatação me parece ser sempre a mesma: sobram direitos e faltam deveres. Na virada do último século, a sociedade conquistou, nominalmente, em diversas esferas da vida pública e privada, direitos humanos básicos, traduzidos de forma veemente por meio da Constituição Federal de 1988. Nominalmente, pois tais direitos para serem postos em prática e valerem efetivamente precisam ser legitimados no dia a dia. Muitas vezes só são respeitados e cumpridos depois de um processo contínuo de luta por parte dos cidadãos. Com certeza, você já deve ter lembrado de algumas batalhas de que participou para fazer valer o seu direito. Está aí, sem dúvida, um belo exercício de cidadania, que deve ser instigado a todo instante.

Por outro lado, me parece que a sociedade como um todo esqueceu dos deveres. Do que cabe a cada um como cidadão. Para ser mais exato, do que cabe a cada um como indivíduo/cidadão/função dentro da sociedade. Em outras palavras: do que cabe ao pai, a mãe e ao filho. Do que cabe ao professor e ao estudante. Do que cabe ao médico, ao engenheiro, ao profissional de qualquer área. Do que cabe ao policial. Do que cabe aos políticos.

Todos, sem exceção, são doutores na exigência e cumprimento de seus direitos. E parabéns, deve ser assim mesmo. Mas boa parte deixa de lado ou não dá a mesma ênfase no cumprimento de seus deveres. Esquecem que o direito de um indivíduo termina quando começa o do outro.

Não preciso aqui listar os deveres que cabem a cada cidadão dentro de qualquer esfera familiar, no âmbito de seu condomínio/rua, na convivência de sua cidade, no exercício de sua profissão, no respeito para com o próximo. É chover no molhado. Todos sabem. E mesmo assim nos espantamos frequentemente com os absurdos que acontecem, com a negligência dos profissionais e com a ausência dos indivíduos. A sensação é que vivemos realmente numa aldeia, não a global das redes sociais, mas de personas individuais, que lutam cada um por si, aonde sobram direitos e faltam muitos deveres. Certamente, boas doses contínuas e caprichadas de ética ajudariam bastante para começarmos a nos entender. Para construir continuamente um lugar melhor.


Marcus Tavares é professor e jornalista


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