Jaguar: Art-toalhas

Dando a cara a cara aos tapas do vento, promovi um concurso dos versos mais bonitos sobre o mar

Por O Dia

Rio - Conhecer lugares é bom; chegar lá é que é — como dizia Noel — o xis do problema. Mesmo tendo (meu caso) nascido no Estácio. Se você não sabe do que está falando este oitentão, procure no Tio Guga, como chamo o Google. Embarcamos num avião da Gol, que deve ter sido planejado para voos domésticos no Japão e, depois de décadas, revendidos para Uganda, para transportar pigmeus. Eu, com módicos 1,72 m, tive a maior dificuldade para me enfiar numa poltrona pela qual paguei mais porque era tipo “confort” (não quero nem pensar como serão as ‘desconfort’).

Embarcamos no novo Galeão, feito para a Olimpíada. Ótimo para atletas, principalmente maratonistas, que poderão fazer aquecimento, mas não para um velho ruim da cabeça e doente do pé (copyright Caymmi). O embarque seria no Portão 2, depois mudaram para o 14, distante uns dois quilômetros. No Aeroporto de Guararapes, no Recife, a história se repetiu, só que nos arrastamos um quilômetro a menos (que os pernambucanos não saibam; tudo lá, para eles, é o maior do mundo).

Passamos alguns dias em Porto de Galinhas. Nosso objetivo era poder dormir até tarde, o que é impossível na minha rua, Humberto de Campos, para onde desviaram o trânsito da Ataulfo de Paiva para as obras do metrô. Antes que me perguntem se vi muitas galinhas, responderei não (copyright Aldir Blanc e João Bosco, em ‘Agnus Sei’). Pelo menos nenhuma penosa, a não ser em canjas.

Célia e eu já conhecíamos, estivemos por lá há uns 15 anos, na pousada Canto do Porto, tocada por amigas, Dôra, Mamá e Ana, mãe e filhas. Da primeira vez era um lugar ermo. Mas hoje Porto de Galinhas cresceu e já abraça a pousada. Da varanda damos de cara com aquele marzão. A varanda é maior que o quarto, com direito a rede. Não me atrevi. Se me enfiasse numa, correria o risco de precisar da Defesa Civil para sair. Mas havia uma providencial espreguiçadeira e um isopor cheio de cerveja sem álcool.

Dando a cara a cara aos tapas do vento, promovi um concurso dos versos mais bonitos sobre o mar. Resultado: empatados em primeiro, por faixa etária: Camões (“O mar estava em paz, o mar em calma”), Mallarmé (“La mer, toujours recommencée/ O recompense après une pensée) Caymmi (O mar, quando quebra na praia/ é bonito, é bonito”). Mas o melhor de tudo — além dos ótimos e baratos restaurantes de lá — foram as esculturas feitas de toalhas pelas moças que arrumam o apartamento. Uma Art-toalha.

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