Por tabata.uchoa

Rio - Queria fazer um pedido a meus amigos e pessoas que admiro: parem de morrer. Minha crônica periga virar obituário. Logo depois de Ivo Pitanguy, lá se foi a Elke. Nos anos 1970 eu morava no Leme; éramos vizinhos. Quase todos os dias a gente ficava biritando na Fiorentina até a casa fechar. Ela namorava um negão, e eu, uma negona. Teve um lance engraçado num festival de cinema em Ubá. Para não chocar a sociedade local, eu fingia que Elke era a minha mulher. Tudo nos ‘conformes’: um casal de gringos e outro de afrodescendentes. 

Elke MaravilhaReprodução

Ela deu entrevista para o ‘Pasquim’ em maio de 1972, quando tinha 27 anos. Chegou rodeada de gays. “Eles me curtem. Neste Carnaval tinha mais de mil Elkes. No meio deles me sinto protegida.” E contou uma história gaiata: “No Baile dos Enxutos, um turista americano perguntou se eu era homem ou mulher. Eu disse: ‘Sou homem, é claro.’ Ele disse: ‘É o travesti mais perfeito que conheci. Nenhuma mulher é tão afeminada.’” “Recebe muitas cantadas de mulheres?” “Muitas! Eu curto é homem, homem é uma delícia.”

Tinha um cultura surpreendente. Ela explicou. “Meus avós eram czaristas, torciam pelo time que perdeu. Ricos e cultos, tinham várias casas de campo na Europa. Meu pai casou com uma alemã. Me ensinaram várias línguas, francês, espanhol, alemão, inglês. O grego, aprendi com meu ex-marido.”

Elke falava tanto palavrão quanto Leila Diniz. “Como é FDP em grego?” “Disnenas to muni.” “Como chegou ao Brasil?” “Fugimos primeiro para a Alemanha, depois fomos para a França e finalmente para o Brasil. Meu pai era agrônomo e, como não sabia português, resolveu recomeçar a vida no campo. Então fomos para Itabira, terra do Drummond. Morei num monte de cidades. Antes de chegar ao Rio, morei em Porto Alegre, onde me casei com o grego.” “Como virou modelo?” “Alexis leu no jornal que Guilherme Guimarães ia dar um desfile de modas. ‘Esta é a sua chance’, disse. Eu não queria de jeito nenhum, mas meu marido teimou: ‘Vou te deixar na porta da casa dele.’ Até pensei em fazer uma horinha na portaria e voltar dizendo que não deu certo. Mas, já que estava lá, resolvi tentar. Toquei a campainha, ele me atendeu. Me mandou tirar a roupa e vestir outra.” A patota do ‘Pasquim’, assanhadíssima: “Ficou nua na frente dele?” “Deixa eu lembrar... Acho que sim. Ele disse: ‘O desfile é dia tal.’” “E como foi o desfile?” “Elogiaram muito a minha técnica. Eu apenas andei. Quando disse para o Guilherme que nunca tinha pisado numa passarela ele quase desmaiou.” (continua...)

Jaguar

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