Somos todos muy locos

Comentário de internauta comprova que os imbecis dominam o Brasil

Por O Dia

Rio - Ler comentários no Facebook é um termômetro dos nossos tempos bárbaros. Tomemos, por exemplo, uma das notícias que mais fizeram sucesso nos últimos dias: William Bonner e Fátima Bernardes terminaram o casamento. Dirigindo-se a ela, um cidadão comenta o seguinte: “...fica na tua, daqui a pouco você consegue um negão”. Que absurdo. E o sujeito ainda tem coragem de assinar seu nome numa estupidez como essa. Deve se achar inteligente e engraçado.

Fui lá conferir o perfil do tal gênio no Facebook e encontro um post em que ele diz que “Nelson Rodrigues estava certo quando falou que os imbecis um dia iriam dominar o Brasil, não pela sua capacidade, mas pela quantidade”. Taí. Ele mesmo dá a pista. Trata-se de um dos imbecis que já dominaram as redes sociais e agora querem o país. E o pior é que estão conseguindo.

É por essas e por outras que desligo a internet e volto para os livrinhos. Na dica da semana, temos ‘Soy loco por ti, América’. É uma viagem e tanto, interligando a trajetória de quatro sujeitos que, nas últimas cinco décadas, viveram em cidades tão diferentes quanto Buenos Aires, Santiago e Brasília.

Diego García, por exemplo, é um argentino humilde que se torna o responsável por escrever os obituários de um grande jornal. No início dos anos 80, ele acaba convocado para cobrir a Guerra das Malvinas, uma burrice cometida pelo governo militar do seu país que levou à morte centenas de jovens soldados. Taí um prato cheio para as boas sacadas de um obituarista experiente que também tem suas próprias histórias para desenterrar.

Outro ótimo personagem é o milionário Marlon Müller, que se mete num excelente projeto para bagunçar as corporações de mídia de todo o planeta. Seu alvo principal é a publicidade que empobrece o ser humano, com a ajuda de programas religiosos de moral duvidosa e protagonistas bizarros. Conhecemos bem essa programação emburrecedora.

No fim das contas, impossível a gente não se identificar com muitas das pequenas histórias que constroem ‘Soy loco por ti, América’. A América Latina, afinal, é coisa nossa. Mudam os sotaques, mas as moscas são as mesmas...

Ah, sim. O livro é de Javier Arancibia Contreras, escritor baiano de origem chilena bem recomendado pelos seus prêmios. E que, a meu ver, só cometeu um vacilo bobo no romance. Em certo momento, o narrador diz que viveu num apartamento de frente para a Lagoa e com vista para o Pão de Açúcar. Acho difícil, mas a ficção pode tudo.

Nelson Vasconcelos é jornalista

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