Roberto Muylaert: Realismo Mágico em Brasília

Na hora dos discursos, todos eles disfarçaram, olhando para o teto e assobiando. Ninguém vestiu a ampla carapuça

Por O Dia

Rio - Depois de Gabriel García Márquez, o Realismo Mágico se identificou com a Colômbia pelas coisas fantásticas e fantasiosas que acontecem em ocasiões corriqueiras na vida daquele país.

Um exemplo está na série ‘Narcos’, da Netflix, onde o nosso baiano Wagner Moura, de ‘Tropa de Elite’, está convincente no papel de Pablo Escobar, embora o pessoal de fala hispânica diga que ele tem um sotaque muito forte. Para entender o Realismo Mágico nesse caso específico, basta dizer que Escobar, que assassinava juízes, tentou ser candidato a presidente da República, não o conseguindo por pouco. E seu problema logístico não era exportar a droga para Miami, mas trazer caixas e mais caixas de notas de dólares para Medellín.

Cá entre nós, o Realismo também está presente, com conotações e características diferentes, como aconteceu há pouco com o fatiamento da sentença que derrubou a “presidenta”, desrespeitando a Constituição sob a égide do próprio presidente do Supremo.

Isso por si só já é uma forma suave do Realismo Mágico. Mas houve o capítulo da posse da ministra Cármen Lúcia na presidência do STF, onde o tal Realismo apareceu por completo. Começou com uma tríade de discursos destinada a preparar os espíritos para o que vem por aí em matéria de punições, sendo que Cármen saudou o “cidadão brasileiro” antes do presidente da República, a mostrar que as autoridades podem não ser legítimas, mas o povo sempre o será.

O ministro Celso de Mello, decano do Supremo, condenou a “delinquência governamental”, atacou os “marginais da República” e defendeu a prisão de quem rouba. E o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, disse que “há consenso cristalizado na sociedade brasileira de que é preciso punir os corruptos”.

O Realismo Mágico, no caso, fica por conta de quem estava ouvindo o discurso no reservado para autoridades: o presidente do Senado, com dez inquéritos abertos no STF; Lula, que responde a inquérito; Aécio Neves, investigado em dois; José Eduardo Cardozo, investigado por obstrução à Lava Jato. E Temer, que pode ter de acertar contas com a Justiça Eleitoral.

Na hora dos discursos, todos eles disfarçaram, olhando para o teto e assobiando. Ninguém vestiu a ampla carapuça.

Roberto Muylaert é editor e jornalista

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