Siro Darlan: Os abutres

A tradição escravocrata que permite que se continue explorando a classe operária condicionou também o desprezo e o ódio da classe média conservadora pelos marginalizados

Por O Dia

Rio - Na semana em que um juiz de Curitiba mandou prender e soltar em menos de seis horas um ex-ministro da República, fui procurado por um jornalista. É famoso por fazer suas reportagens em cima da desgraça alheia, agindo como se fosse um “tribunal de exceção” que primeiro escolhe as vítimas para depois encontrar os fatos.

O ‘investigador midiático indagava por que eu havia concedido liminar em habeas corpus a uma moça da Rocinha, concedendo-lhe a liberdade, e depois revogara minha própria decisão para decretar sua prisão.

Respondi que a soltura se dera por excesso de prazo razoável para a prolação da sentença em sede liminar, e que quando levava o processo para julgamento no colegiado sobreveio sentença condenatória, a qual, por se tratar de título novo, o habeas corpus deveria ser julgado prejudicado, e a liminar, cassada, como efetivamente o foi, com expedição de mandado de prisão. Tais decisões ocorreram em oito dias.

Insistia o jornalista que teria havido recurso do MP, que se limitara a tomar ciência com ela concordando. O que leva um serviçal da mídia investigativa a buscar as razões que levaram um magistrado a soltar e prender uma moça da favela e não comentar sequer os motivos que fizeram de uma prisão de um ex-ministro necessária e menos de seis horas depois desnecessária?

Certamente que não é o amor à notícia, nem à tão decantada liberdade de imprensa, já que os que servem aos interesses políticos de uma empresa de comunicação é a caça às bruxas àqueles que os contrariam. O professor Teun van Dijk, da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, chama isso de manipulação de um ato discursivo ilegítimo.

Não há democracia sem imprensa livre, mas quando não há liberdade para a produção do debate pelos profissionais da mídia com a sociedade, mas uma agenda ditada por uma editoria impregnada por interesses e associada a uma deformação da opinião pública, é sinal que não há liberdade de imprensa e a democracia está sob risco.

Profissionais de qualidade que se submetem aos interesses editoriais de seus patrões estão na verdade vendendo sua inteligência e conhecimento para servir a esses senhores que lhes paga o soldo e os mantêm escravizados. Poucos são aqueles que ainda resistem e esse mercado escravocrata da inteligência alheia.

O que leva determinadas pessoas a manipular a opinião púbica contra os pobres como fez recentemente um candidato à Prefeitura de Curitiba ao afirmar que vomitara ao sentir o cheiro de um pobre? O que leva alguns atores midiáticos a exercitar o ódio à miséria manipulando conceitos que confundem pobreza com marginalidade?

Apenas podemos apontar para o uso da poderosa ferramenta midiática para manter os privilégios da minoria rica em detrimento do fosso que separa 1% de milionários dos 90% de pobres que habitam nosso país. A tradição escravocrata que permite que se continue explorando a classe operária condicionou também o desprezo e o ódio da classe média conservadora pelos marginalizados.

Siro Darlan é desembargador do TJ e membro da Associação Juízes para a Democracia