Por thiago.antunes

Rio - Você gostaria de observar bem de perto o que milhares de pessoas fazem em seus momentos mais íntimos? Nos anos 60, o americano Gerald Foos decidiu que sim, era isso o que queria da vida. Com essa ideia fixa na cabeça, comprou um motel e, depois de reformar os quartos, passou a espiar confortavelmente o que seus hóspedes faziam entre quatro paredes. Ficou nessa tara durante três décadas.

Foos preencheu vários cadernos contando o que viu. São casos e casos envolvendo a sexualidade de gente de todo tipo. Presenciou cenas quentes, momentos sórdidos, mudanças no comportamento social, tráfico de drogas e até um assassinato. Mas nada poderia ser divulgado porque ele estava fazendo algo muito feio, e o risco de ser processado seria grande.

Foos guardava seu segredo a contragosto. Só quem sabia de seu hábito eram suas mulheres — cada uma a seu tempo, claro. Ele mesmo não se considerava um pervertido, e sim um profundo estudioso de assunto maldito, um pesquisador pioneiro do sexo. Fez estatísticas, tirou conclusões sobre a fauna humana. Uma delas: não dá para confiar nas pessoas.

Nos anos 90, quando se aposentou, Foos autorizou o veterano jornalista americano Gay Talese a publicar sua história. Foi assim que nasceu ‘O voyeur’, livro-reportagem que já foi lançado, em junho passado, sob polêmica. Isso porque, como toda a conversa parece muito estranha, alguns jornais foram checar os fatos e descobriram algumas imprecisões nos relatos do xereta, que hoje é oitentão. Bem que Talese já tinha alertado, no próprio livro, que não confiava totalmente em sua única fonte, ou seja, Gerald Foos. Não dá para confiar nas pessoas...

Mas Talese é um sujeito sério, com mais de 50 anos de bons serviços ao jornalismo, referência em todo o mundo. Tendo sido ludibriado ou não, ele reproduz em ‘O voyeur’ trechos dos diários do maluco-espião e insere comentários. Tem muita coisa interessante. Mas, com tanta confusão, até desistiu de promover a obra — que acabou se promovendo sozinha...

Verdade ou mentira, parece que nem importa, porque muitos de nós estamos acostumados a divulgar ou aplaudir mentirinhas via Facebook. O estilo de Talese garante ótima leitura para o fim de semana e toca num assunto bem atual: com tantas câmeras à solta, será que privacidade ainda existe? Afinal, graças a fenômenos como o Big Brother e as selfies, perdemos a vergonha de nos mostrar para o mundo. Taí uma boa conversa de botequim.

Nelson Vasconcelos é jornalista

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