Gabriel Chalita: E a verdade?

Decorar fórmulas para enganar é desprezível. Um dos piores problemas da política é a mentira e seus outros nomes, a dissimulação, a hipocrisia

Por O Dia

Rio - A conversa discorria sobre a importância de se falar bem em público.
Há, falavam os interlocutores, muitas técnicas de convencimento. O olhar. O movimento das mãos. As pausas. O tom da voz.

Falavam alto. Era possível compreender cada pequeno detalhe. E era possível perceber a preocupação que tinham com o tal do convencimento.

Diziam que alguns se negavam a fazer o tal treinamento. Que se sentiam suficientemente seguros. Que sabiam, inclusive, enganar.

Foi aí que a prosa degringolou. As tais técnicas tinham uma finalidade: fazer parecer verdade o que verdade não era. Era quase que um curso sobre “a mentira” ou sobre “o engodo”.

Comentaram sobre um deles, um político, que foi tão enfático na entrevista, que venceu. Que soube olhar, movimentar as mãos, dar a pausa correta, usar o correto timbre de voz, que ninguém mais o perturbaria com aquela história. Riram os dois da ardilosidade do companheiro. “Ele chorou na hora certa”, vibrou um dos dois. “É importante, sensibiliza as pessoas”, concordou o outro. “Tem que saber despertar o sentimento de pena adormecido.” E riram e riam ainda mais falando quão ignorante são as pessoas. Qualquer coisa as leva para um lado ou para outro.

Ora, vejam. A oratória é arte antiga. Sobre ela se debruçaram muitos pensadores. Platão critica os que se valem de artifícios da linguagem para o convencimento. Aristóteles discorda do mestre e valoriza a retórica como uma arte de dizer bem o bem. Forma e conteúdo. É preciso verdade, queria o filósofo, para que o que deve ser dito seja dito e convença.

Não há problemas em se estudar como falar bem em público. Para plateias ou para os que assistem pelos meios eletrônicos. Saber convencer. Saber utilizar a linguagem corporal. Saber como se inicia, como se desenvolve e como se conclui uma oração. A retórica se ocupa disso. E traz com ela outros elementos, como a hermenêutica, que trata da compreensão, da interpretação; e a heurística, que trata do compromisso com a verdade.

E é sobre a verdade que eu quis perguntar àqueles dois. Chorar é possível desde que haja razões para tanto. Ir e vir com palavras e gestos. Tudo isso é possível e é preciso.
Mas a pergunta fundamental é: e a verdade? Não precisa um político ou um pregador ou um jornalista ou um palestrante ou quem quer que se disponha a convencer pessoas ter um compromisso com a verdade?

Decorar fórmulas para enganar é desprezível.

Um dos piores problemas da política é a mentira e seus outros nomes, a dissimulação, a enganação, a hipocrisia.

Fala-se não a verdade, mas o que deve ser falado para minimizar danos. O maior dano é precisar mentir. Depois do malfeito, o ensaio para criar uma história e sair-se ileso.

Tristes prosas em que os risos nascem do aplauso ao que soube mentir com mais categoria porque dominava algumas técnicas.

Proseemos sobre outras canções. A canção da verdade, da sinceridade. Errar é parte do caminhar. Mas compete aos caminhantes um arrependimento sincero, uma correção necessária, um dizer verdadeiro a si e aos outros. A mentira também está presente quando o auditório é o próprio falante. Convenço-me a mim mesmo de que o erro não é tão errado assim. E por isso persisto enlameado.

Depois dessa conversa, ouvi uma professora falando sobre uma aluna com síndrome de Down em sua sala de aula. Da sua evolução. Da riqueza de sua convivência com os outros alunos. Vi tanta verdade naquela emoção, que agradeci. Há esperança.

*Gabriel Chalita é professor e escritor

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