Nelson Vasconcelos: Um pouco de leveza

Depois de uma semana tremendamente pesada, que não merece mais comentários, esta coluna sugere que você busque uma leitura bem leve

Por O Dia

Rio - Depois de uma semana tremendamente pesada, que não merece mais comentários, esta coluna sugere que você busque uma leitura bem leve. Foi o que fiz ontem, e deu certo.

Peguei ‘O ano da lebre’, que parece título de autoajuda ou coisa do gênero, mas é um livrinho bem-humorado e que captura você já na primeira página, quando um fotógrafo larga o colega repórter no meio de uma estrada na Finlândia (e essa maldade, aliás, é o sonho de muita gente que conheço).

O coitado do jornalista tinha saído do carro para socorrer no mato um coelho que acabara de atropelar. Como não respondeu ao insistente chamado do outro, acabou abandonado. Só que, saturado da sua vidinha, ele decide ficar por ali mesmo (outro sonho de muita gente que conheço).

É assim que começam suas aventuras ao lado do coelho. Deixando para trás a mulher e o emprego insuportáveis, ele sai em aventuras pelo país, sempre ao lado do animalzinho e tentando fazer um mundo melhor. O problema (e a graça) é que sempre acaba em confusão. No fim das contas, o bom moço será processado por alguns crimes leves que cometeu sem querer.

Será que conseguirá levar o companheiro coelho para a cela? Ou será que vai conseguir se safar da cadeia? O final da história é bem engenhoso.

Podemos ver o livro como uma fábula sobre o mundo contemporâneo, ou como um poema à liberdade etc. Podemos ver ali qualquer coisa — e aí, claro, depende do interlocutor (seja ele um coelho ou não). A prosa de Arto Paasilinna é tão fluente, tão segura, que o leitor não conseguirá se desprender das 200 páginas.

Arto, aliás, é um experiente escritor finlandês, hoje com 74 anos. Sua obra é muito estimada lá fora. ‘O ano do coelho’ recebeu meia dúzia de prêmios importantes e teve o mérito de ser adaptado para o cinema duas vezes (em 1977 e 2006). Poucas obras têm esse reconhecimento.

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Outra excelente pedida é “O rebelde do traço”, biografia do Henfil assinada pelo Dênis de Moraes. O Henfil morreu em 1988, aos 43 anos, mas sua obra está por aí, cada vez mais afiada, sobretudo com os políticos que temos. A turma de Brasília, afinal, sempre foi seu alvo — e parece que nada mudou muito por lá.

A vida do cara foi tão movimentada que você lê o livro como se fosse um romance dos mais agitados. Com o humor e a crítica certeira, Henfil se tornou um dos orgulhos da imprensa brasileira na ditadura. Não precisava nem ter namorado a Bruna Lombardi.

Nelson Vasconcelos é jornalista

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