Fernando Scarpa: Aeronaves desgovernadas

Amanheceu com o avião caído, anoiteceu com os insensíveis atravessando a madrugada em quadrilha. Queriam derrubar a aeronave da democracia. Brasília era caos

Por O Dia

Rio - É muito mais interessante observar o comportamento e o caráter dos deputados do que as decisões tomadas na madrugada com o país em luto. Era confissão de culpa, pavor da justiça? Triunfo da canalhice? Eles tinham pressa, se corromperam à vontade, a vida é cara, as mulheres deles são caras!

O povo também é plenário: vota, vai guardar com carinho o nome de seus traidores. As redes sociais não deixarão esquecer. Nossos queridos políticos não lembram para que foram eleitos. Um dos loucos, delirando, disse: “O Congresso não é obrigado a ouvir o povo...”, dá para acreditar? O negócio é se proteger e se vingar da turma da lei com interpretações dúbias do que significa abuso de autoridade. E por que não ampliar o foro privilegiado em posição de vantagem?

Os advogados do Lula já ensaiaram a ‘novidade’: pegaram pesado com o juiz que atua na “região agrícola” do país, apostando precocemente na lei de abuso de autoridade aprovada. Modernos, se antecipavam à nova jurisprudência que ainda não rolou. Lindbergh optou por chamar o juiz de “caipira”, exemplificou isso comparando Moro com um juiz do Texas! Interiorano por interiorano, é fato que o magistrado preocupa a vida do seu cliente, incomoda a possibilidade das mãos da Justiça segurarem o homem mais honesto do país. Realmente seria injusto, diz a voz da ironia!

Fatídico dia! Amanheceu com o avião caído, anoiteceu com os insensíveis atravessando a madrugada em quadrilha. Queriam derrubar a aeronave da democracia. Brasília era caos. Baderneiros nas ruas e na Câmara, de gravata, terno e justificativas cínicas, abusavam do poder contra o abuso de poder. Estão apavorados, com pressa, a ameaça é iminente. Mas qual a diferença entre o que se passava nas ruas e na Câmara? Lá fora se destruía a cidade, lá dentro, o país. A sorte é que o mandato não é eterno, a memória está fresca, e o acerto será nas próximas urnas, alguns vão amargar nas mãos dos eleitores do passado.

Renan Calheiros virou réu, não por unanimidade, sempre tem quem discorde, não é novidade. Todo criminoso tem direito a defesa, a lei se presta como ninguém nas suas brechas e deixar escorregar o ensaboado meliante tão cheio de atenuantes sustentados pelos amigos de toga. Fica a dúvida: vai ter condenação?

Fernando Scarpa é psicanalista