Por tabata.uchoa
Rio - Ela voltou para a escola. Para a faculdade. Faculdade de Direito. Na mesma sala em que o filho. No início, teve algum receio. Seria a mais velha da turma? Conseguiria conviver com os demais? E o filho? Acharia estranho ter a mãe na carteira ao lado? Rompeu essas incertezas e iniciou uma nova fase da vida. Filho e mãe iam juntos e estudavam juntos. Ela, viúva, teve de dar conta da criação deste e dos outros três filhos.
Esse é um medo mais comum do que se imagina. Mas é possível conviver com eleAgência O Dia


Não teve como estudar antes. Mas sempre quis fazer faculdade de Direito. Gostava de falar sobre o exercício da cidadania, sobre os direitos e os deveres, sobre a justiça. Sempre teve horror a injustiças. Viveu isso na pele. Sofreu calvários intermináveis com a saúde precária do nosso país. Fez de tudo para que o marido fosse atendido com dignidade, não foi fácil. Teve de brigar com planos de saúde. A família fazia uma economia enorme para pagar, todo mês, o plano. E quando precisaram... mas o marido se foi. A dor da separação era confrontada com a certeza de que havia feito tudo o que estava ao seu alcance e que o marido também tinha o direito de descansar em paz.

E lá estava ela, agora, em uma nova fase da vida. Nas provas, ia muito bem. Estudava mais do que o filho. Tinha receios de, com a idade, ter mais dificuldade para memorizar o necessário. Não era isso que se mostrava, entretanto. Enquanto o filho frequentava algumas festas, ela frequentava o abajur e os óculos grossos para ler e reler a matéria, para estudar, para não ficar sem o conhecimento necessário.
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Eis que nos conhecemos. Em uma palestra. Mãe e filho. Eis que ela me contou a sua história e detalhou as suas superações. Mas havia algo que a incomodava muito. O medo de falar em público. “Minhas mãos ficam suadas, eu ensaio uma coisa, e sai outra, seguro o microfone longe da boca, coloco um ‘né?’ depois de cada frase, me perco, não sei como terminar e, quando acabo, sinto que não me saí bem.” O filho discorda da mãe. Diz que ela está melhorando, que tem que vencer a insegurança. Ela volta ao tema e diz que, às vezes, sente que não tem o dom de falar em público.
Eu tento jogar alguma luz. “Dom? Falar em público se aprende. O medo é natural. Medos são enfrentados quando há uma causa maior. Fazer justiça é uma causa nobre. É um fim nobilitante. Ter uma causa é ter o conteúdo. Falar é a forma de levar esse conteúdo.”
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E prosseguimos na conversa. Ela quis saber da minha história. De como eu havia aprendido a falar. Viajei um pouco no tempo. Contei dos meus medos, das minhas inseguranças, dos meus equívocos na trajetória.
Ela foi prestando atenção a cada detalhe da narrativa. Seus olhos foram ganhando mais brilho. “Então, você também tem medo de falar em público?” Respondi positivamente. Expliquei que, se esse medo não paralisasse, não era ruim. Que o medo nos tornava mais cuidadosos. Que nos dava a humildade e a responsabilidade necessárias para sabermos que era preciso preparar cada fala, inclusive em respeito às pessoas que estavam ali para nos ouvir.
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Outros alunos vieram participar da conversa. Ela foi vendo que, de fato, esse é um medo mais comum do que se imagina. Mas é possível conviver com ele. E usar dele para aprimorarmos nosso poder de convencimento. As técnicas ajudam, mas o essencial é a causa que nos move, é a verdade que faz com que queiramos ajudar nossos interlocutores a melhorar a si mesmos e ao mundo. As utopias sempre foram aliadas dos grandes oradores. Mandela tinha uma causa clara que ultrapassava todo o mal que lhe fizeram. Seu povo, sua pátria, o movia para falar cada vez melhor. Assim foi com Martin Luther King e com Gandhi. Assim a multidão se ajeitava para ouvir as parábolas de Jesus. A mãe me olhava concordando. “Mandela era bem mais velho do que eu e queria mudar o mundo, não é? Eu também posso.”
Líderes são inspiradores. Carecemos deles. Ela vai ser a oradora da turma. Tenho certeza de que fará um lindo discurso. E o filho estará lá. E os outros alunos também. Inspirando-se em quem soube recomeçar, em quem luta para transmutar as injustiças sofridas em um sonho de com elas acabar.
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Oxalá todos os profissionais que atuam com o Direito tivessem esta ‘causa’. A causa da justiça.
Gabriel Chalita é professor e escritor