Por tabata.uchoa
A grandeza austera e universal da obra do poeta sempre correu paralela à vida intensa em fazeres e haveresAgência O Dia

Rio - Li, entre emocionado e por vezes até aflito, tudo o que se escreveu (e se falou) sobre a morte de Ferreira Gullar nesta última semana. A grandeza austera e universal da obra do poeta sempre correu paralela à vida intensa em fazeres e haveres, uma soma arrebatadora do ato de viver, com o sangue em ebulição, para construir pontes intelectuais de convergências ou de divergências. O que fez produzir em Nélida Piñon a frase certeira, “sua biografia de vivências pessoais na política e nos debates estéticos será tão importante quanto sua obra”. 

Eu iria continuar hoje, neste espaço exíguo, a destilar memórias do que compartilhei com ele ao longo de muitas décadas, algumas das quais centralizadas em Teresa Aragão, amiga querida minha e que me fez muito próximo do marido. Nos anos 60, nós três passamos a pesquisar, visitar e nos encantar com os artistas ínclitos, aqueles revestidos pela pureza e espontaneidade, especialmente, é claro, os compositores dos morros ou da ala de compositores das escolas de samba. Pintores também bafejados pela veemência e ousadia passearam por nossa rota comum de busca e de revelação.

Eram os tempos do Teatro Opinião ou do CPC da UNE, que se esticavam às palestras do Iseb, com Candido Mendes, Roland Corbisier ou Guerreiro Ramos. Sim, estava estimulado a refletir mais e mais sobre o amado poeta e companheiro de andanças.Que, poucos dias antes de ir para o hospital, me mostrara na casa-ateliê de Copacabana suas colagens abstratas e quase geométricas, uma coleção de sólida beleza conceitual e estética que ele, inquieto e provocador como sempre, vinha criando nos últimos anos. 
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Mas, ao assistir há pouco no Teatro NET-Rio ao espetáculo ‘60! Década de Arromba — Um Doc. musical’, decidi compartilhar a morte de Gullar com o nascimento de um novo tipo de show, um mergulho nos anos 60 em eletrizante evocação visual da década onde tudo aconteceu, para o bem ou para o mal. De imediato, conectei a originalidade e o atrevimento do espetáculo do diretor Frederico Reder à coragem e sabedoria do Gullar nas veredas dos 60, ousando o exercício da liberdade nos míticos shows do Opinião e na dramaturgia de Vianinha, Boal ou dele mesmo.
O elenco de cantores jovens surpreende, em especial Bel Lima, neta do grande escritor Alberto da Costa e Silva, cuja natural austeridade não escondia na plateia o brilho nos olhos. De puro orgulho.
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A estrela do show é Wanderléia, a musa da Jovem Guarda-1965, esplendorosa aos 70 anos. Mas não faltam, é claro, citações eloquentes ao Teatro Opinião, à música de protesto, à luta a favor dos ideais de liberdade de que Gullar era pregoeiro e militante, naqueles 60 efervescentes.
Ricardo Cravo Albin é Presidente do Inst. Cultural Cravo Albin
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