Nelson Vasconcelos: É coisa nossa

O italiano Tommaso Buscetta, um dos criminosos mais procurados do mundo, vivia tranquilamente no Rio

Por O Dia

Rio - O pessoal aqui do DIA tem a honra de trabalhar ao lado do Luarlindo Ernesto, repórter há 56 anos e que sempre tem uma boa história pra contar. Foi ele que, em 1983, descobriu que o italiano Tommaso Buscetta estava vivendo tranquilamente no Rio.

Naquele momento, Buscetta era um dos criminosos mais procurados na Europa e nos EUA. A reportagem do Luarlindo permitiu que a polícia armasse o circo para capturá-lo, desarticulando uma das mais tradicionais ‘famílias’ da máfia internacional.

Buscetta nasceu em Palermo, 1928. Bem-sucedido no mundinho do crime, foi cooptado pela máfia nos anos 40 e prestou excelentes serviços para a bandidagem global. Tornou-se lenda. Basta dizer que foi um dos responsáveis por estruturar a rede de distribuição de cocaína e heroína nos EUA. Depois disso, tentou se criar no Brasil dos anos 1970, mas acabou preso, torturado e deportado.

Na década seguinte, fugindo da cadeia (e da morte) em seu país, voltou para cá com documentos falsos e retomou os trabalhos. Capturado novamente (com a tal ajudinha do Luarlindo), foi levado para a Itália, onde resolveu abrir o bico. Em troca de proteção, ajudou a Justiça a condenar nada menos que 475 mafiosos graúdos. E fez o mesmo nos EUA. Depois disso, ele e sua família sumiram do mapa. Buscetta morreu em 2000, vítima de leucemia.

Todo esse enredo é contado em detalhes no recém-lançado ‘Cosa Nostra no Brasil’, do jornalista catarinense Leandro Demori. É tudo verdade, mas o livro encarna o ritmo dos bons filmes de ação, com direito a muitos crimes, drogas, traições e tudo o que não presta — além da bela paixão entre Buscetta e sua mulher brasileira.

Já no primeiro capítulo, Demori mostra que é bom narrador. Impossível a gente não querer saber o que acontecerá a uma jovem grávida que está prestes a ser jogada de um avião, em pleno voo sobre São Paulo, pelo delegado Fleury, famoso pelas maldades. O que será que ela tem a ver com a máfia?

Por falar nisso, o livro me chamou a atenção também ao mostrar que o crime vê novos mercados onde a população vê destruição — e foi daí que a máfia cresceu, mergulhando em “décadas de especulação imobiliária, clientelismo estatal, influência sobre os bancos e, mais tarde, a mãe de todas as fortunas: a droga”. Parece até o nosso Rio de hoje. Mas não. Era a Itália do pós-guerra. Só que essa semelhança é muito, muito preocupante.

É isso. O negócio é ler o livro — até para aprender, definitivamente, a pronúncia correta do sobrenome do mafioso.

Nelson Vasconcelos é jornalista

Últimas de Opinião