João Batista Damasceno: Invasão de templo é vandalismo

Se uma igreja é invadida pela polícia para de dentro dela se atirar em manifestantes, o que não se faz nas periferias e em favelas como Cidade de Deus a pretexto de vingar a derrubada de um helicóptero?

Por O Dia

Rio - Funcionários civis e militares protestavam contra tentativa de aprovar lei que lhes reduz direitos, quando a crise no Estado poderia ser minorada com a cobrança de dívidas dos ricos com o Erário, revogação de benefícios fiscais indevidos e desfazimento de contratos de locação esquisitos.

Aparelhos de ar condicionado, mesas e cadeiras e até tampa de vaso sanitário não são adquiridos pelo Estado. Mas alugados de empresas cujos quadros societários deveriam ser objeto de apuração pelo Ministério Público.

Para a repressão aos colegas, a polícia invadiu a Igreja de São José e atirava das janelas em quem estava na rua. Não há registro de fato desta natureza. Durante a ditadura empresarial-militar, uma bomba foi colocada no altar da Catedral de Nova Iguaçu; o bispo Dom Adriano Hipólito foi sequestrado; seu carro foi explodido num estacionamento, e a igreja, pichada.

Dom Waldir Calheiros, em Volta Redonda, e Dom Paulo Evaristo Arns, sepultado ontem, em São Paulo, se colocaram ao lado do povo e enfrentaram a ditadura. Padre que auxiliava Dom Hélder Câmara, em Olinda, foi assassinado. Mas, à luz do dia, as igrejas por eles dirigidas não foram ocupadas pelos facínoras.

Apresentei minha solidariedade ao cardeal-arcebispo Dom Orani Tempesta e lhe disse que lido profissionalmente com o aparato repressivo do Estado há 30 anos; que lhe diriam que é caso isolado; que não foi ato ordenado; que a tropa é despreparada; que a decisão foi tomada no calor dos acontecimentos; que tudo seria apurado e ao fim lhe pediriam desculpas.

No dia seguinte o comandante da PM, na ausência de governo no estado, apresentou pedido de desculpas, disse que foi decisão no calor dos acontecimentos e que apuraria os fatos.

A teologia cristã registra que Cristo é amor, mas que expulsou os profanadores do templo. E não deve ter sido com jeitinho. Pilatos, governador da Judeia, lavou as mãos e sacrificou um inocente. Nem sempre havemos de aceitar desculpas.

Se um templo religioso, monumento com 410 anos, é invadido pela polícia para de dentro dele se atirar em manifestantes que protestavam, também, por não terem recebido seus salários, o que não se faz nas periferias e em favelas como Cidade de Deus a pretexto de vingar a derrubada de um helicóptero que a perícia concluiu não foi alvejado, mas caiu por problemas técnicos?

João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política e juiz de Direito

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