Por clarissa.sardenberg
Rio - Jamais me esqueci de uma frase de Santiago Dantas — e apreendi como uma flecha assestada certeiramente ao coração — sobre a contradição possível entre talento e falta de caráter. Cumpro antes um dever dizendo-lhes duas palavrinhas sobre Santiago Dantas, que foi um pensador e intelectual de estirpe refinadíssima, professor-catedrático da Faculdade Nacional de Direito, onde lhe bebi o saber e a cultura. Ele, também premiê de Jango (no fugaz Parlamentarismo do começo dos 1960), proferiu aula-conferência para nos alertar sobre a necessidade de fazer-se distinção entre o talento e o caráter de personagens públicos, em especial artistas e escritores. 
O saudoso mestre destilou atrevidamente nomes históricos, a começar por Sócrates e Platão, ou Rousseau e Robespierre, ou até Hitler e Plínio Salgado, como antônimos/antíteses entre talento e caráter. Ou seja, aptidão moral ilibada de um contrapondo-se à falta de sustentabilidade de caráter corrompido do outro, embora ambos em valoração inquestionável como personagens da nossa História.
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Santiago surpreendeu seus alunos, em especial a mim, trazendo a tese ao Brasil daqueles dias, antepondo Hermes Lima (também depois premiê parlamentarista e acadêmico da ABL) a Golbery do Couto e Silva (teórico do golpe militar em gestação). Surpreendeu ainda mais ao comparar os opostos Alceu Amoroso Lima e Gustavo Corção, ambos jornalistas e polemistas. Quanto a Alceu, todos concordamos. Mas quanto a Corção houve imediato alarido entre nós, alunos de esquerda, postos em pé de guerra ao apenas lhe ouvir o nome.
Santiago, depois de considerar as diferenças orgânicas entre ambos (e nos convencer), saiu-se com uma provocação final. A voz pausada, entre doce e solene, que emitia aquele homem elefantino, envergando óculos de fundo de garrafa, aduziu: “Todos nós lemos no ‘Cruzeiro’ (a maior revista semanal de então) Rachel de Queiróz e David Nasser. Vocês certamente podem abominar o último, polemista que abusa do contraditório, do cruel. Mas se esquecem de que sua outra face, a de compositor popular, alegrou e alegra gerações sucessivas de brasileiros. Sabiam que ele é o letrista que idealizou um dos versos-chave da nossa música de Carnaval?” E cantarolou: “Confete, pedacinho colorido de saudade...”
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No primeiro dia deste 2017, David Nasser cumpriu cem anos de nascimento. Pouquíssimo lembrado, a não ser pelo contraditório do polemista que foi, o autor de ‘Confete’ encantou o país com outros clássicos da MPB, como ‘Normalista’, ‘A camisola do dia’, ‘Pensando em ti’, ‘A coroa do rei’ e ‘Hoje quem paga sou eu’, peças encravadas na memória coletiva do brasileiro.
Portanto, talento e caráter não podem ser anulados, um pelo outro. E vice-versa.
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*Ricardo Cravo Albin é presidente do Inst. Cultural Cravo Albin