Por thiago.antunes
Rio - ‘Lá não havia nenhum santo’, disse o governador do Amazonas, referindo-se aos 57 mortos num presídio de Manaus. “Tinha que haver uma chacina dessas por semana”, afirmou o secretário nacional da Juventude, Bruno Júlio. Para o presidente Temer, o ocorrido foi um “acidente”.
Já o coronel Amêndola, ex-integrante do DOI-Codi, o maior centro de torturas da ditadura, e secretário de Ordem Pública de Crivella, disse ao ‘RJTV’: “Não se pode permitir que ônibus despejem centenas de pessoas — maiores e menores — na orla marítima e daqui a algumas horas se tenha um arrastão, molestando as pessoas de bem.”
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O que há em comum nessas frases é a ideia de que há gente que merece respeito — “as pessoas de bem”, para Amêndola — e gente cuja vida não vale nada. Na cabeça do coronel, as tais “pessoas de bem” se confundem com “pessoas de bens”.
O golpe que levou Temer ao poder acirrou o ódio de classe aos pobres. As manifestações dos quatro trogloditas, citadas acima, o demonstram. Para o governador do Amazonas, como supostamente as vítimas do massacre eram criminosos, e não “santos”, não se deve lamentar as mortes.
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Já o energúmeno que era secretário de Temer foi ainda mais direto. Pregou o extermínio de quem supostamente cometeu crimes. Claro que não teriam esse destino se fossem criminosos de colarinho branco. Mas isso é outra conversa...
Temer classifica as mortes de “acidente”, como se tivesse havido a queda de um avião, e não uma chacina anunciada, pela qual seu governo tem responsabilidade por omissão. Amêndola iguala-se aos defensores do apartheid da velha África do Sul.
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Para o coronel, as praias, espaços de convivência de pessoas de distintas classes sociais, não podem ter a presença de suburbanos, “despejados” (e expressão é sintomática) por ônibus. Ele não crê que essa gente vá à orla em busca de lazer, mas para cometer crimes.
Já temos na Prefeitura do Rio o representante de uma igreja reacionária, dona da segunda maior rede de TV do país, cujo projeto de poder se fortaleceu com a eleição de Crivella. Como senador, ele sempre se alinhou com o setor mais retrógrado do Congresso: a bancada BBB (Bíblia, Bala e Boi). O quadro é preocupante. Se não houver reação da sociedade, caminharemos para a barbárie.
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Cid Benjamin é jornalista