Gabriel Chalita: Os gestos de Barack Obama

Há muito a se dizer sobre a gestão Obama. Há os que o criticam. Há os que o reconhecem como um grande estadista

Por O Dia

Rio - A Casa Branca terá uma nova família. O casal Obama e suas filhas se despedem sexta-feira da residência oficial de quem preside os Estados Unidos da América. Chegaram há não muito tempo. O tempo passa soberano. Depois de eleito e antes da posse, Obama fez algumas incursões em alguns países para levar a bandeira que gostaria de ver tremulando nos mastros do mundo. Em uma dessas viagens, falou aos alemães usando uma metáfora que serviria como marca de sua administração. O mundo precisa de pontes, não de muros.

Há muito a se dizer sobre a gestão Obama. Há os que o criticam. Há os que o reconhecem como um grande estadista. Mas vamos aos gestos que ficam desse homem que ousou enfrentar os preconceitos e entrar para a história.

Nos dias finais de Casa Branca, a família Obama serviu aos funcionários que durante oito anos lhes serviram. Gesto simples de gratidão. Gesto nobre de mostrar que, apesar de desempenharmos papéis diferentes, temos todos a mesma importância. Gesto afetuoso de quem enxerga o outro. De quem sabe seus nomes. De quem interpreta os seus sonhos.

As filhas de Obama sempre fizeram trabalho voluntário. A mulher de Obama, Michelle, abraçou causas sociais de grande envergadura. A postura do casal foi a de compreender que, em um mundo carente de referenciais, era preciso dizer com gestos o que era necessário resgatar.

Em oito anos de gestão Obama, nada de escândalos de corrupção. Seu nome se manteve limpo. Mesmo em uma política capaz de chamuscar, inclusive, os corretos. Ele passou ao longe. Não se viram demonstrações de autoritarismo, de ameaças, de exibicionismos de poder. Seus gestos foram de acolhimento. Ações que visavam a diminuir os preconceitos — e como eles existem!

A nação americana protagonizou horrores contra os negros. Cenas sangrentas que mancharam um país que gosta de se dizer o mais democrático do mundo. No país de Martin Luther King, coube a Obama assumir o protagonismo de mostrar o que queria o pregador. Que o valor de uma pessoa não viesse da cor de sua pele, mas da nobreza de seu caráter. O olhar aos imigrantes, às minorias, aos discriminados. O dizer ao povo que ficava à margem. O agir criando as tais pontes.

Gestos que ficam.

Mas e agora?

Agora, o mundo parece querer outra coisa. O discurso de Donald Trump é o oposto. Insiste no tal muro da fronteira com o México. Faz ouvidos moucos à pregação de um Papa conciliador e visionário como Francisco: “Onde há um muro, há fechamento de coração”. O Papa tem razão. Mais uma vez. O novo presidente fala dos imigrantes com desdém. Já chegou a diminuir as pessoas com deficiência, já desmereceu as mulheres. E foi eleito.

Não vou além nas reflexões sobre Trump. Permitamos ao tempo que nos mostre quem ele é.

Voltemos a Obama. Seus gestos ultrapassam o hoje. A história dará a ele um papel de destaque. E a Michelle. E às filhas. E a esse jeito de compreender que o maior poder é o de servir.

?Gabriel Chalita é professor e escritor

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