Roberto Muylaert: Realismo mágico demais

O roubo dos governantes nos últimos anos foi de tal grandeza que só num país rico poderia acontecer: 42 bilhões de reais desviados, sendo que só na Petrobras foram roubados 6,2 bilhões de reais

Por O Dia

Rio - No começo do século 20 surgiu uma corrente literária chamada Realismo Mágico, ou Realismo Fantástico, na América do Sul, com destaque para Gabriel Garcia Márquez, cujo romance ‘Cem Anos de Solidão’ encantou o mundo.

No Brasil, esse estilo literário nem precisaria existir diante dos fatos fantásticos que aqui ocorrem, com novelas reais se desenrolando diante dos nossos olhos arregalados.

O roubo dos governantes nos últimos anos foi de tal grandeza que só num país rico poderia acontecer: 42 bilhões de reais desviados, sendo que só na Petrobras foram roubados 6,2 bilhões de reais.

E ainda tem gente dizendo que a Petrobrás é nossa. E o povo acredita, porque não consegue se informar e já está colocando Lula em primeiro lugar nas pesquisas para presidente.

Em resumo, pouco importa o que os políticos façam, esses malfeitos não são percebidos pelo grande público, que vota por slogans dos candidatos, sem atentar para os escabrosos fatos.

O volume de dinheiro desviado é realismo mágico puro, além dos prejuízos com obras inacabadas e feitas sem critério. Quem recebe propina não pode reclamar da obra realizada.

Interessante comparar o roubo na Lava Jato com o custo de um avião como o utilizado pela Presidência da República: seria possível comprar uma frota de 142 aviões A-319, com os recursos desviados.

Outro realismo mágico sentido na pele foi a doença de Tancredo Neves, na véspera da posse como presidente. Um escritor de ficção relutaria em escrever essa história.
E o mais recente caso foi a morte de Teori Zavaski, às vésperas de expor ao público as vísceras putrefatas de inúmeros dos nossos políticos.

Desse episódio tive a sensação exata do que significa perder um homem como ele, em tais circunstâncias. Estava em Parat, e acompanhei a chuva pesada e sem vento no exato momento em que o avião tentava pousar.

Muita tristeza. E, quando o dia terminou, refleti sobre o fato de que aquele homem tão importante para o Brasil estava sentado na poltrona de um avião a três metros de profundidade, no fundo lodoso de uma baía de água rasa, talvez com o cinto de segurança ainda afivelado, à espera que o dia amanhecesse para ser resgatado, como aconteceu.

Confesso que não consegui dormir. Era realismo mágico demais.

Roberto Muylaert é editor e jornalista

Últimas de Opinião