Rio - O governador do Amazonas, José Melo, causou polêmica ao afirmar em entrevista que não havia nenhum santo entre os mortos na rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus. A polêmica ficou por conta da nítida mensagem de que não devemos lamentar as mortes, pois, como diz o ditado, “bandido bom é bandido morto”.
Não vamos entrar aqui na complexa discussão a respeito desse dito popular, mas não podemos ignorar o fato de a afirmação partir do responsável por garantir (sendo a gestão privada ou não) o bom funcionamento dos presídios do estado.
Envolvidos pela revolta que assola os brasileiros, não são poucos os que pensam que rebeliões como essa acabam por ‘limpar’ a sociedade. Ocorre que pensar assim é profundamente perigoso na medida em que permite analogias parciais que se voltam contra a própria sociedade.
Mortos nas rebeliões em presídios não são santos; logo, podem morrer. Ao ouvir isso, lembrei-me imediatamente dos mortos nos hospitais públicos todos os dias e, como não poderia deixar de ser, lembrei-me dos alunos que não aprendem nas escolas públicas sem a mínima estrutura.
Que mensagens nossos governantes passam sobre essas mortes, agindo como se não fossem problema deles? Já ouvi autoridades afirmarem que os hospitais públicos estão sempre cheios porque o povo recorre a eles por qualquer febrezinha e isso acaba prejudicando o atendimento dos que estão graves.
Esse raciocínio é o mesmo que afirma que assaltos acontecem porque as pessoas andam à noite em ruas e locais perigosos ou que estupros ocorrem por conta das roupas provocantes que algumas mulheres usam.
Na escola, esse raciocínio perverso é responsável por afirmações do tipo “aluno que não aprende é porque não quer nada” ou “a escola está quebrada porque lá só tem vândalo”. Cabe até mesmo a afirmação de José Melo: “Lá não tem nenhum santo”.
Não importa se presidiários não são santos, se pessoas buscam o hospital por uma simples febre ou se há alunos que não querem nada na escola. Precisamos de presídios que garantam o cumprimento das penas, de hospitais que garantam o atendimento de todos que não se sentem bem e de escolas que garantam que todas as crianças aprendam, não apenas os melhores alunos.
Júlio Furtado é professor e escritor