Gabriel Chalita: Feliz Idade

Viver a felicidade em qualquer idade é desafio para os fortes

Por O Dia

Rio - Uma amiga completou 80 anos. Uma festa agradável. Pessoas das mais diferentes idades circulavam. Entre bebidas e comidas, conversas. Falavam sobre a aniversariante e sobre o seu pacto com a felicidade. Em qualquer idade.

Perdeu ela um filho. Sofreu a inversão da lógica da vida ao ver, sem vida, o fruto do seu amor. Enterrou com dor e tentou compreender a despedida. Fácil não foi, mas ela prosseguiu.

Viver a felicidade em qualquer idade é desafio para os fortesAgência O Dia

Perdeu o marido. O companheiro que aplainou seus invernos. Que compreendeu suas mudanças. Que acolheu seu estilo livre de ser.  Perdeu, certamente, muitos amigos. Alguns mestres que abriram a ela bibliotecas de ensinamentos que a ajudaram a ser quem é.

Mas estava ali. Roupa nova. Cabelo feito. Maquiagem adequada. Passeando entre os seus. Dizeres bonitos. De vidas que se encontram e se renovam quando somos fortes.
Viver a felicidade em qualquer idade é desafio para os fortes. É isso. Para aqueles que compreendem a efemeridade da vida e o devir. O prosseguir. O curso das coisas.

Encontros e despedidas. Mudanças. Os passos se tornam mais vagarosos, mas a mente se torna mais profunda. Há algo de nobre na maturidade. As ansiedades se acomodam um pouco. Há que se aprender com as experiências. As dores se repetem, mas já as conhecemos. Quando chegam, nós as recebemos com menos surpresas e aguardamos que partam. Que partam sem nos partir.

Houve um momento de discursos. A aniversariante gosta da palavra. Pediu que alguns amigos falassem. Falaram. Não pouparam elogios. Ela os recebeu com alguma parcimônia. Deu os descontos necessários, mas sobre eles quis discorrer.
Falou da beleza de completar 80 anos. De ter resistido tanto. De ter superado doenças, medos, mortes. De estar ali.  Na feliz idade.

Falou sobre os que se foram. Rapidamente. Sem ressentimentos. Sem mágoa do destino. Falou apenas celebrando a saudade. Falou dos que estavam ali. Do quanto valorizava os afetos. Os afetos desinteressados que recebem o nome de amizade. A amizade é o melhor alimento para a sobrevivência. São laços protetores que nos envolvem contra as mudanças abruptas de temperatura, de temperamento.

Cantamos celebrando. E partilhamos o doce que havia ali. Sobre ele, as velas que só deveriam ser apagadas ali. A luz da aniversariante prosseguirá. Certamente. Ela não tem pressa alguma de partir.

Saí da festa pensando nas idades. Brigar com elas é prova de pouca sabedoria. Não decidimos a idade que queremos ter. Decidimos ser felizes em cada idade. Decisão árdua, mas necessária. Quero chegar aos 80. Resistir às intempéries que me roubam a paz. Sentimentos teimosos os meus que boicotam momentos felizes. Não sei por que, vez ou outra, opto pelo complicado e abandono o simples. Depois aprendo e tento reescrever o que ficou faltando de mim. Por alguma razão, perco-me apenas para agradar. O tempo me ensina o contrário. Encontrando-me é que compreendo o que devo fazer, inclusive com e para o outro. A amizade, o amor, só robustecem na autenticidade.

Olhava aquelas pessoas e ficava imaginando, principalmente, as que eu não conhecia, o que elas já passaram e como resistiram. Ali, estavam se alimentando do doce. Da doce festa da vida. Ali, rendiam-se ao prazer do estar. Estarão sozinhas depois com os seus sentimentos e as suas lembranças. Mas se compreenderam a magia que há em cada mutante paisagem, compreenderão que prosseguiremos. Sempre.

Não sei quantos anos tinha o mais velho daquela festa. Não sei os remédios que tomam nem os problemas que carregam. Sei que dali saí com vontade de viver mais. Para lembrar. Para sonhar.

A aniversariante encerrou dizendo que não iria falar dos seus sonhos. Porque eram tantos. Que talvez o tempo de que eles ali dispunham não seria suficiente. Brindemos à vida, então.

Gabriel Chalita é professor e escritor

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