Wagner Victer: Cantando para Trump!

No cenário político atual, não só no Brasil como no mundo, não se confere mais aos processos eleitorais a escolha de representantes dentro dos tradicionais cortes políticos de representantes das chamadas 'direita' e 'esquerda'

Por O Dia

Rio - As manifestações que aconteceram durante a posse de Donald Trump por parte de diversas personalidades, em especial e artistas, que inclusive se recusaram a participar das cerimônias, além das contundentes Marchas das Mulheres, geraram a sarcástica resposta do presidente empossado: “Por que eles não votaram?”

Não obstante o presidente americano ter sido eleito dentro das regras do processo eleitoral e, portanto, democráticas, estabelecidas naquele país, esta resposta acaba sendo muito provocante e motivo para reflexão.

Ao redor do mundo, a alienação muitas vezes é uma postura turbinada de maneira anárquica pelas redes sociais. Tal fato acontece também durante o processo do exercício do voto, o que tem feito com que, em muitos casos, se elejam aqueles que acarretam, a posteriori, um arrependimento culposo não declarado, tornando atônitos aqueles que por sua própria omissão terão consequências em forma de autoflagelo.

Nunca é demais lembrar aos jovens brasileiros os exemplos que, no passado, sem as atuais urnas eletrônicas, aconteceram gerando fenomenais votações no ‘Cacareco’ e no ‘Macaco Tião’. Vale também lembrar que, recentemente, alguns parlamentares controversos foram escolhidos para o Congresso Nacional.

Como o caso de um conhecido eleito por São Paulo, não por sua representatividade em seu segmento artístico, mas por suas propostas na propaganda eleitoral, que beiravam a chacota.

No cenário político atual, não só no Brasil como no mundo, não se confere mais aos processos eleitorais a escolha de representantes dentro dos tradicionais cortes políticos de representantes das chamadas ‘direita’ e ‘esquerda’.

Até porque também é totalmente democrático essas ideologias estarem democraticamente reconhecidas nas urnas e até na alternância de poder. Mas, principalmente, por estas nomenclaturas classificatórias hoje não serem mais representativas de comportamento político.

O que merece se compreender é que no cenário atual não deve se buscar meramente as ideologias que funcionam como máscaras, mas não se pode, sob pena de retrocesso da sociedade, consolidar a escolha de representantes para os diversos cargos políticos que defendam posturas isolacionistas, preconceituosas, e retrógradas em diversos aspectos como sociais e ambientais.

No Brasil, como no exterior, há muito tempo não se respeitam meramente os princípios partidários outrora valorizados. Hoje, peças de ficção, como no caso dos Estados Unidos, onde Trump vem se afastando dos princípios do Partido Republicano desde a campanha, através de suas bravatas, que agora viram leis trágicas, e não cômicas, dentro do cumprimento dos seus próprios compromissos de campanha.

O caso de Trump não é único e não será o último! Marine Le Pen, na França, que não por possuir uma visão conservadora, mas a partir da pregação de bandeiras preconceituosas contra imigrantes, também caminha no mesmo risco de ser validada pelas urnas.

É lamentável observar uma sociedade onde cada vez mais surgem pessoas que acham que o seu papel se limita a protestar pelas redes sociais e fazer piadas e protesto através do voto, principalmente abrindo mão de seu direito de votar, como nos Estados Unidos e até em nosso país onde se constata a crescente abstenção do direito de votar (apesar de obrigatório).

Obviamente isso passa também pela educação e pela formação de nossos alunos. Os jovens devem frequentar uma escola livre, que não seja submetida a qualquer mecanismo de patrulhamento por uma nova legislação tacanha, que impeça que professores desenvolvam em seu ambiente escolar o espírito crítico, comunitário e participativo de seus alunos.

Isto deve ser rotina desde as séries iniciais, onde o conceito da responsabilidade social exercido por programas de voluntariado e do exercício do direito do voto sejam muito mais valorizados que o ativismo isolado, também democrático, através dos diversos canais que a sociedade disponibiliza pelas mídias sociais.

Mais do que nunca o mundo real deve se sobrepor ao virtual para que não tenhamos os "arrependidos não declarados" contribuindo em forma de omissão para a consolidação do retrocesso.

Wagner Victer é secretário de Educação do Estado do Rio

Últimas de Opinião