Gabriel Chalita: Mudei de profissão

O que não se compreende é a aceitação passiva do que não se realiza

Por O Dia

Rio - Dias desses, conheci um cantor. Um cantor que canta com a alma da gente do interior. Que gosta dos compositores que compõem as canções contando uma história. A história “de uma casa no campo” em que eu possa dizer, inclusive, que “eu quero o silêncio das línguas cansadas” e “a esperança de óculos”.

Que cada um entenderá do seu jeito. Que desafiará algum pensamento. Um cantor que canta sobre o boi e a boiada. Sobre a palmeira na beira da estrada “onde foi cravado muito coração”.

Pois bem, esse cantor era zootecnista. Trabalhava no campo e admirava as pessoas do campo. E as coisas do campo. Um dia, ele mudou de profissão. Agradeceu o que viveu e partiu em busca do barulho do seu coração. Foi ser cantor. Foi ser cantador. Foi cravar em muitos corações a beleza da sua voz.

Cláudio Lacerda é seu nome. O que viveu serviu de acúmulo e de inspiração. O que deixou serviu de desafio para novas buscas. A vida aprecia quem a aprecia. Quem tem a coragem de mudar. Quem tem o discernimento de saber onde fincar suas bandeiras.
Há que se inspirar novos bandeirantes. Descobridores do que realiza.

Do que perfuma a vida. A deles própria e a dos outros. Quem está realizado faz melhor o seu trabalho. Trabalha porque compreende o que pode ser transformado. Uma canção transforma muita gente. Um remédio, também. Um livro. Uma condução. Uma viagem. Uma obra. As profissões se multiplicam.

Os lugares em que trabalhamos, também. Os desejos e as necessidades vão se ampliando e lá surgem outras coisas para fazer. O que não se compreende é a aceitação passiva do que não se realiza. Há um dentista que resolveu virar designer de interiores e, hoje, espalha seu bom gosto dando gosto à vida de muita gente.

Há um advogado que resolveu montar um restaurante e saborear sua nova função na companhia de gente alimentada pelo seu sabor. Há uma secretária que continuou secretária, porque gosta de ser secretária. Apenas mudou de emprego. No emprego anterior, não havia respeito. Não havia gratidão. E trabalhar onde não se sente bem é um desperdício de tempo e dos próprios talentos.

Quantas pessoas se sentem diminuídas, impotentes até. Sentem-se incapazes de executar um bom papel. E mudam. E, miraculosamente, começam a perceber que podem mais. Não. Não é milagre. É coragem. Coragem, como dizia, Fernando Pessoa, de abandonar as roupas velhas e vestir algo novo.

Ouço vozes confusas que lamentam ou a profissão ou o local em que trabalham. Evidentemente, não se pode jogar tudo para o alto sem planejamento. Há degraus a serem vencidos para que se chegue onde se deve chegar. Mas é preciso ir. Mesmo enfrentando o cansaço. Melhor o cansaço do que a paralisia. Melhor o medo do novo do que a apatia do velho. Melhor a mudança do que a inexplicável permanência.

Permanecer não é ruim. Explico logo. Desde que se sinta útil. Desde que o acordar seja um prazer pelo prazer de saber que o que se faz dá prazer. Há muitos que, durante anos e anos, realizam as mesmas ações. E são felizes. As mesmas ações são sempre diferentes quando se vive o que se faz. Fazer pelo burocratismo.

Fazer pela falta de opção. Fazer para passar o tempo é perder o precioso tempo de compreender que o tempo passa. É melhor renovar as roupas. Mas deixar que outros usem as que, um dia, usamos. Para delas nos despedirmos.

O acúmulo de passados não nos faz bem. Há alguns que mudam de emprego, mas que vivem o que já passou. Até com alguma raiva. Até com algum desejo de vingança. Porque foram demitidos. Porque foram substituídos.

Roupas novas. É disso que precisam. Uma postura nova. Uma esquina nova para novas conversas. O cantor que inspirou esta reflexão também canta ‘Disparada’. A canção que empatou com ‘A Banda’, naqueles antigos festivais. Jovens apaixonados eram aqueles.

Que brigavam pela liberdade e por um lugar no palco da vida. Boa lembrança. Preparemos o nosso coração para as coisas que ainda vão acontecer... se tivermos coragem de mudar.

Gabriel Chalita é professor e escritor

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