Ricardo Cravo Albin: Oh! As marchinhas...

Foi com esta mesma inflexão que batizei, há exatos 45 anos, o primeiro espetáculo no Rio (Sala Sidney Miller da Funarte) a perfilar a magia deste gênero musical tão arraigadamente ligado ao espírito e às ruas cariocas

Por O Dia

Rio - O título acima não é só uma exclamação suspirosa de saudade, mas quase um réquiem para as marchinhas de carnavais do passado. Foi com esta mesma inflexão que batizei, há exatos 45 anos, o primeiro espetáculo no Rio (Sala Sidney Miller da Funarte) a perfilar a magia deste gênero musical tão arraigadamente ligado ao espírito e às ruas cariocas. Compus roteiro e direção (cuja estrela era a cantora Marlene) em homenagem à amiga Eneida, cronista e militante política (personagem, aliás, de ‘Memórias do Cárcere’, de Graciliano Ramos), que me acompanharia, anos a fio, no Museu da Imagem e do Som. Ela era a secretária-geral do Conselho Superior de MPB do MIS e autora do livro ‘História do Carnaval’.

Pois bem, agora, só agora, levanta-se uma polêmica tão inútil, porque sem fundamentos históricos, quanto preconceituosa e injusta, já que assesta baterias contra marchinhas maliciosas (como se dizia antigamente, de ‘double sens’, ou duplo sentido) que várias gerações de brasileiros cantaram e consagraram.

Alegando-se uma razão que, convenhamos, já anda ultrapassando os limites do bom senso, o “politicamente correto”, alguns blocos de rua apontam dedos acusadores contra marchinhas célebres como ‘O teu cabelo não nega’ (o sucesso de 1931, 31!, que ejetou para o sucesso Lamartine Babo, o Rei das Marchinhas), ‘Maria Sapatão’, ‘Cabeleira do Zezé’ ou ‘Mulata Bossa Nova’, as três de João Roberto Kelly (já nos anos 60).

Certos personagens casmurros de Eça de Queiroz exclamariam... “Ora, ora, por quem sois!”. Digo eu o mesmo, entre pasmo e ensurdecido, pelos reclamos tonitruantes de foliões de ruas, logo eles, os foliões dos blocos, os mesmos blocos de nomes desinibidos e audaciosos como Sovaco de Cristo (nenhum cristão ousou declarar-se ofendido, ao que eu saiba), Rola Preguiçosa ou Perereca da Vizinha (nenhuma Associação de Senhoras Pias a favor da Moral bradou qualquer protesto).

Não, caros foliões subitamente mal-humorados ou mal-informados, vocês me perdoem, mas lhes falta a percepção (essencial) da consolidação de gerações ao se arriscarem a bramir o politicamente correto. Ou seja, o tempo consolida a alma encantadora das ruas e absorve, logo absolvendo de pecados, sabiamente, as práticas cantadas e liberadas pela voz popular. Aliás, nada me surpreendeu tanto quanto a censura à palavra ‘mulata’, acusada de ofensiva porque sua possível raiz vem de mula, animal híbrido.

Ora, ora, por quem sois! A mulata é o mais formoso tipo de mulher brasileira, supremo fruto da miscigenação que nos redimiu como civilização. Nosso orgulho e nossa consolação. E para não ir mais longe em minha indignação, canto como o Braguinha, também imbatível campeão das marchinhas — “Branca é branca / Preta é preta / Mas a mulata é a tal / É a tal...”

Ricardo Cravo Albin, presidente do Inst. Cultural Cravo Albin

Últimas de Opinião