Nelson Vasconcelos: Tipo Romeu & Julieta

Até que ponto, afinal, é ato humanitário manter viva uma pessoa sem dignidade, sem vida própria, sem decisões nem poder sobre si mesma?

Por O Dia

Rio - Você seria capaz de matar alguém que estivesse sofrendo muito? Nunca se sabe... Veja o caso do aposentado Nelson Golla, de 74 anos, de São Paulo. Neusa, sua companheira, de 72, vivia entrevada numa clínica para idosos, vítima de dois AVCs e outras complicações.

O marido ia visitá-la todo santo dia e, depois de muito refletir, decidiu que sim, era hora de abreviar o sofrimento de Neusa. Mais que isso, ele resolveu morrer junto com ela — porque a vida longe da mulher, afinal, não teria mais graça nenhuma. Estavam juntos havia 54 anos.

Foi assim que, num certo domingo de 2014, Nelson fez uma bomba caseira, abraçou-se à companheira sobre seu leito e detonou o artefato. Mas algo deu errado. A bomba explodiu, e somente Neusa morreu. Nelson ficou ferido, sem gravidade. E o que ele planejara como um duplo suicídio (pois diz que aquele também era o desejo da mulher) tornou-se um homicídio. Para ele, o ato de desespero fora mais do que necessário. Manifestação de piedade e amor.

Culpado ou inocente? O caso ainda está para ser julgado, mas levanta a questão da eutanásia, prática adotada em vários países e que tem que ser discutida muito seriamente por aqui. Até que ponto, afinal, é ato humanitário manter viva uma pessoa sem dignidade, sem vida própria, sem decisões nem poder sobre si mesma?

O drama do Nelson Golla está longe de ser único, pois hoje a medicina é capaz de prorrogar indefinidamente a vida de quem está definhando, de forma irreversível, sem perspectivas de melhores dias. Como fica claro em ‘O último abraço’, de Vitor Hugo Brandalise, prolongar o sofrimento é inaceitável. Médicos brasileiros já discutem o assunto — sinal de que esta prática já existe há tempos, sobretudo entre doentes mais idosos.

‘O último abraço’ leva a sério essa discussão. É uma ótima reportagem, com pouco mais de cem páginas. Impossível não sentir na pele a angústia da família Golla e, no fim, entender que, seguindo a lei e as normas técnicas, a eutanásia pode, sim, ser um ato de amor.

Mudando de assunto, dicas para quem gosta de poesia. A primeira é ‘Antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira’, organizada pela Adriana Calcanhotto. Apresenta 41 poetas nascidos a partir de 1970. Pra mim, não sendo bem um leitor de poesia, foi grata surpresa. Por último, vale conferir a reedição de ‘A luta corporal’ e ‘Na vertigem do dia’, duas das obras mais marcantes do Ferreira Gullar, falecido ano passado. 

Nelson Vasconcelos é jornalista

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