João Tancredo: Blindar o povo de hipocrisias e demagogias

Se cabe alguma blindagem, é a blindagem do povo desse desrespeito para seguirmos em frente na luta para repensar uma política de segurança

Por O Dia

Rio - No último dia 30, a vida da Maria Eduarda foi violentamente interrompida dentro da escola. A estudante, alvejada enquanto praticava Educação Física, deixou com ela, para além do luto e tristeza diante de brutal tragédia, o início da luta de seus familiares e tantos outros para ver a sociedade repensar a cidade e exigir outra política de segurança pública.

No entanto, não bastasse a brutalidade que envolve o caso, o posicionamento de autoridades consegue aprofundar ainda mais as indignações. No clamor da opinião pública são criados factoides, mostrando ou a incapacidade de análise crítica ou o descaso peculiar aos maus políticos que, em verdade, pouco se importam com o coletivo.

Blindar escolas em áreas de conflito sob o argumento de que crianças precisam de lugares seguros é uma das maiores bravatas de todos os tempos, uma vez que não reflete sobre a estrutura e orientação da política de segurança. Portanto, não trata de oferecer soluções reais à questão.

Esse tipo de postura reflete exatamente como o Poder Público aborda questões primordiais para o cidadão, com ideias mirabolantes, notoriamente incabíveis e inexecutáveis, fugindo das discussões profundas e necessárias para uma sociedade mais segura e justa. Num Estado que sequer oferece condições básicas para Educação, sugerir a blindagem de escolas é no mínimo desrespeitoso.

Se existe a preocupação com a segurança das crianças, que haja investimento sério em Educação e na formação de políticas públicas que não sejam voltadas para a suposta destruição de um inimigo em falida guerra às drogas que apenas enxuga gelo sem demonstrar efetividade, sem falar em humanidade e dignidade. Não é com projetos de maquiagem que resolveremos os graves problemas que passamos, não só com a violência generalizada, mas nas mais diversas áreas essenciais para a vida do povo.

Num momento triste como este, tudo o que não se precisa é tratar os moradores como se ignorantes e ingênuos fossem. Chega de hipocrisia e demagogia. Se cabe alguma blindagem, é a blindagem do povo desse desrespeito para seguirmos em frente na luta para repensar uma política de segurança que não tenha como foco e resultado óbvio a morte, seja de civis, seja de policiais.

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