Ana Cecília Romeu: O mapa do respeito

Empatia no ser humano, que era coisa rara, agora parece artigo vintage escondido em brechó

Por O Dia

Rio - Conveniente seria se houvesse um mapa do respeito com as rotas desenhadas para se acessar de forma certeira ao destino pretendido: ser respeitado. Talvez os cientistas ainda inventem um aplicativo para celular indicando locais e situações comprovadas estatisticamente em que poderá se obter uma socialização agradável.

O sociólogo Zygmunt Bauman traçou a teoria das relações líquidas em tempos pós-modernos. A satisfação com maior número de experiências, em detrimento à qualidade delas, tornou-se realidade. A empatia no ser humano, que era coisa rara, agora parece artigo vintage escondido em brechó. E pouco se faz sem querer algo em troca, e aqui não falo da satisfação da bondade, e, sim, do oportunismo.

Há pessoas que só valorizam as árvores se forem frutíferas; a opinião alheia se estiver avalizando a sua; o interlocutor, se poderá lhe ser útil. E as relações não se centram apenas na possibilidade de escorrer pelos dedos, do líquido que vaza, do efêmero; mas da mistura com terra que pode escorrer o puro e deixar a sujeira nas mãos.

Situações mal resolvidas criando inimizades, pois não se pratica mais o argumento, apenas a imposição. E tanto no mundo real como no virtual o bom tom perdeu a linha, a bússola e a estrada.

Estamos nos tempos do barro — quando as relações líquidas se tornaram banais —, a próxima fase de uma socialização que declinou consagrando-se ainda mais rudimentar, que se utiliza de filtros ultrapassados onde o líquido limpo escorre para a sujeira da pendência, do mal resolvido, da batalha de reinos de ego permanecer.

E nos tempos de barro, a letargia é o rei do homem. E por mais que nos sensibilizemos com fatos, torna-se quase aceitável a imagem das crianças sírias deixadas a morrer no que se transformou seu território: campos de batalha. Os ataques terroristas e os conflitos atuais são apenas um link arquivado que queremos escorrer pelo ralo.
Passamos por uma série crise política-econômica contornada por uma sociedade desumana.

Todavia, acredito que a Humanidade ainda possa avançar através das crianças quando criadas por adultos que se preocupem com os outros, mas esses são poucos...

?Ana Cecília Romeu é publicitária e escritora

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