Eugênio Cunha: Juventude terceirizada

Não ao acaso, mas por nossa decisão, devemos proteger a juventude quando ela estiver distraída

Por O Dia

Rio - Os recentes casos de mortes e incidentes relacionados ao jogo online denominado “Baleia Azul” têm colocado questionamentos acerca da forma como a sociedade tem lidado com uma nova geração de crianças e adolescentes.

Tenho escrito neste jornal sobre como o uso das ferramentas digitais tem modificado a nossa vida e trazido o compartilhamento de diferentes tipos de conhecimento, tornando acessível saberes que antes ficavam restritos a uma pequena parte das pessoas.

Nossos jovens e crianças são os mestres desse ofício, como artífices que criaram a dinâmica do conhecimento colaborativo, participativo e autoral. Levam para as mídias digitais e redes sociais uma teia de afetos e desejos apoiada nos atributos da liberdade e autonomia. Trata-se de uma condição que muitos só encontram ali, no mundo virtual.

Porém, a internet não é só isso. É um espaço de convivência do qual não podemos esperar ética, sem que essa construção ocorra primeiramente nas relações que estão na vida real. Vejo que a coisa toda não pode ser resumida a um olhar apenas para a maneira como os pais devem educar seus filhos ou a escola seus alunos.

As raízes das dificuldades dos jovens que se tornaram vítimas desse jogo, que são as mesmas raízes daqueles que são ceifados cotidianamente na violência do caos social em que nos encontramos, foram estabelecidas quando se perderam os vínculos com o que lhes era precioso, os vínculos com a família, seus sonhos, identidade, amor próprio, amor pelo outro.

Ficaram a solidão e o desamparo, desencantos de quem perdeu a ingenuidade de sonhar. Há tempos suas emoções são terceirizadas e acolhidas por quem está do outro lado do computador.

Em uma infância não muito distante, o melhor amigo estava do outro lado da rua; a namorada ou namorado era alguém que se podia tocar a mão; uma alegria era tomar café com os pais para depois fazer amigos na escola.

Talvez nós, de gerações anteriores, tenhamos falhado em estabelecer laços suficientemente fortes. Talvez não tenhamos aprendido ainda a conviver e a ensinar a convivência. Sem convivência não se estabelecem laços.

Como diz a música: “Devia ter amado mais... arriscado mais”. Porém, não ao acaso, mas por nossa decisão, devemos proteger a juventude quando ela estiver distraída.

Eugênio Cunha é professor e jornalista

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