Por thiago.antunes

Rio - Como se sabe, há inúmeros mistérios entre o céu e a terra, e nossa vã filosofia não é tão esperta para perceber a maioria deles. Mas a literatura bem que chega perto disso, sobretudo na obra do carioca Alberto Mussa. Taí um sujeito sagaz, daqueles com o pé no chão e a cabeça na lua — ou além.

Ele conhece as almas encantadas das ruas do Rio, mistura sua cátedra de terreiros com os segredos das esquinas e, nessa função, conduz o leitor até a última página em busca de soluções para problemas talvez inexistentes. E nem importa. O que vale é a caminhada.

Andei pensando nessas coisinhas depois de ler, em dois tempos, ‘A hipótese humana’, quarto e penúltimo romance de uma série do Mussa sobre o Rio de Janeiro, cada qual se passando num século diferente.

Desta vez, estamos em 1854, envoltos pela morte de uma bela e fogosa mulher casada logo depois de receber o amante na casa do pai. Quando este chega , atrapalhando o deleite do casal, o parceiro de ocasião foge pela janela e se entoca nas redondezas. Pouco depois, escuta tiros e, em seguida, acompanha a perseguição ao criminoso.

Quem matou Domitila, a danadinha do Catumbi? É esta a pergunta que nos leva a passear entre pessoas e bichos, mortos e vivos — como se fizesse alguma diferença, ainda mais no Rio do século XIX...

E mais não digo, justamente para não atrapalhar as descobertas do leitor ao lado do detetive Tito Gualberto – que, veja só, é o amante da jovem assassinada. Pra variar, Mussa brinca com nuvens de fumaça e nos faz ver o que talvez não exista – e, por outra, nos faz não ver o que existe. O sobrenatural, por exemplo, existe ou não?
F

ica a dica, portanto. ‘A hipótese humana’ reforça o que a gente já sabe há algum tempo: dando nó em pingo d'água, construindo círculos de cinco pontas, Mussa está entre o que há de melhor na literatura brasileira de hoje. Tem um projeto, tem voz própria e segue seu caminho sabiamente, sem emular ninguém, que é a maior chatice da literatura de hoje.

A propósito, vale uma reflexão: será que a morte da Domitila tem a ver com o medo da liberdade sexual feminina? Seria esse, um problema masculino clássico, que perpassa toda a história da civilização? Taí um caso a se pensar. A boa literatura sempre esconde boas sacadas por baixo da superfície.

Nelson Vasconcelos é jornalista

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