Roberto Muylaert: Nosso metrô virou propina

Estudo revela que, em um ano, o valor desviado chega a R$100.000.000.000, isto mesmo, cem bilhões de reais

Por O Dia

Rio - O Estadão e a agência FCB lançaram um programa chamado “derealpararealidade.com.br”, que calcula valores da corrupção transformados em realizações a favor da sociedade.

Estudo da FIESP revela que, em um ano, o valor desviado chega a R$100.000.000.000, isto mesmo, cem bilhões de reais, considerando também os custos decorrentes dessas práticas ilegais e nocivas que se alastram pelo Brasil como uma peste.

Esse montante transformado em linhas do metrô de São Paulo resultaria em mais de 300 km construídos, sendo que hoje existem 78 km. No ritmo do que poderia ser aplicado nas obras, com o dinheiro disponível hoje, levaria 172 anos para chegar à extensão de Londres, com 408 km, segundo dados de 2016.

Portanto, se a roubalheira tivesse concentrado seu montante em resolver o transporte urbano na capital paulista, estaríamos com todos os cantos da cidade servidos por metrô, mais as cidades próximas, chegando mais perto de Londres, que começou em 1863, sendo o nosso, de 1974.

O incrível é que a ganância com que políticos e empreiteiros embolsam tanto dinheiro faz com que a maioria desse montante fique depositado em paraísos fiscais, sem que haja sequer condições de gastar tanto, mesmo para alguém que ponha as mãos nos bens de consumo mais caros que existem.

É muito comum ouvir-se do governo que não há recursos para executar investimentos. Isso não é verdade: as empresas que trabalham no Brasil abastecem o governo com uma quantidade enorme de valores dos impostos explícitos ou implícitos, cobrados com crise ou sem crise.

O problema é como são usados esses recursos, como acontece com os privilegiados de Brasília, que tem o maior salário médio do Brasil, quase o dobro da média nacional, assim como aposentadorias integrais. E o funcionário público, com raras exceções, costuma se empenhar menos do que o pessoal da empresa privada, até porque não pode ser despedido, mesmo com desempenho medíocre.

Os exemplos acima são casos particulares de um grande desalento nacional que atinge todas as camadas da população. Difícil acreditar no Brasil de hoje, quando tudo indica que não vamos conseguir sair tão cedo do lamaçal das irregularidades de todos os tipos e tamanhos, que nos atingem em cheio.

Roberto Muylaert é editor e jornalista

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