Roberto Muylaert: Prenderam o Juquinha

Afinal, um país para ter tanta corrupção, tomadas de decisão erradas, privilégios de castas que estouram a Previdência, etc., precisa ser muito rico, como é o nosso caso

Por O Dia

Rio - Fala-se muito da ‘africanização do Brasil’, no sentido pejorativo. Mas se a gente prestar atenção em alguns indicadores econômicos, vemos que, em crescimento do PIB, a maioria do continente africano ganha longe do Brasil, o que não chega a ser uma grande façanha, tendo em vista os nossos fracos resultados.

Corrupção, há de monte por lá, mas nada comparável aos casos escabrosos que vemos por aqui. Afinal, um país para ter tanta corrupção, tomadas de decisão erradas, privilégios de castas que estouram a Previdência, etc., precisa ser muito rico, como é o nosso caso.

Em compensação, quando falamos da africanização no setor de ferrovias, temos que nos curvar ao melhor desempenho dos africanos. É o caso do trem unindo Rio e São Paulo, uma necessidade absoluta em um país como o nosso.

Tanto que a presidente Dilma Rousseff prometeu entregar o trem-bala entre as duas cidades, mais Campinas, antes da Copa do Mundo de 2014.

A ferrovia não saiu, e mais uma estatal foi criada, com nome pomposo: Empresa de Planejamento e Logística (EPL). Sabemos que empresas assim abrem, mas não fecham, e seguem sugando verbas. Só nessas preliminares, o gasto foi de mais de um bilhão de reais, mesmo sem existir a ferrovia.

Enquanto isso, o presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, inaugurou em maio último a ferrovia Mombassa-Nairóbi, com 480 km, mais ou menos a extensão da nossa. Mas nada de trem-bala, que pode custar o triplo, e sim uma ferrovia ‘standard’, feita pelos chineses, com financiamento e tudo, de US$ 3,6 bilhões.

O ‘Mandaraka Express’ está funcionando, e a viagem equivalente a Rio-SP é feita em oito horas, contando com paradas, levando 1.260 passageiros por composição. Fora as cargas: um contêiner que custa 900 dólares por caminhão baixa para 500 dólares no trem.

A propósito, a última notícia do Brasil sobre ferrovia é a prisão de Juquinha Neves, ex-presidente da Valec (ferrovia Norte-Sul), acusado de lavagem de dinheiro (R$ 20 milhões), segundo o ‘Estadão’.

Nos últimos 30 anos, de acordo com a Folha, a Norte-Sul, ainda inacabada, consumiu R$ 28 bilhões, sendo que os órgãos de fiscalização estimam que pelo menos um terço foi superfaturado.

Pena que não estejamos nos africanizando, pelo menos nas ferrovias.

Roberto Muylaert é editor e jornalista

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