Por thiago.antunes

Rio - Um dos assuntos mais comentados nas redes sociais esta semana foi a 'brincadeira' de alunos da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo. Caso semelhante aconteceu em 2015, no tradicional Colégio Marista Champagnat, de Porto Alegre.

Tratava-se de ação organizada pelo terceiro ano (vestibulandos, portanto), intitulada “se nada der certo”, em que os alunos vestiam-se com fantasias e uniformes de profissões que consideram fracassos: faxineiras, garis, garçons, atendentes do McDonald’s, vendedores e afins.

O caso é preocupante e, talvez, evidencie que nada deu certo mesmo. A escola, enquanto espaço educacional é, em princípio, fundamental na formação de nossas subjetividades. Não somente a difusão do conhecimento técnico-científico, mas também processos de socialização, de (re)conhecimento do Outro devem ocorrer na escola.

Numa sociedade como a nossa, com um passado escravocrata-senhorial mal superado e marcada por desigualdades estruturais abissais, a figura do Outro é muitas vezes construída a partir de um discurso de inferiorização, de exclusão. Os espaços de interação com o Outro diferente, espaços públicos por excelência, cada vez mais são evitados.

O grupo social ao qual pertencem esses alunos muitas vezes vive em espaços privados de pluralidade: condomínio, clube, shopping, etc., em que o diferente não é aceito. Um apartheid social brasileiro, uma sociedade de muros que pode ser representada numa figura: a do elevador de serviço.

Escamoteados por um falso discurso de meritocracia, os privilégios deste grupo de alunos são confundidos por eles com sucesso, reproduzindo uma estrutura de hierarquia socioeconômica, e reforçados por visões de mundo discriminatórias e excludentes.

O Outro, porque diferente (economicamente, socialmente, educacionalmente etc.), é visto como inferior, como aquele que “não deu certo”, destinado a servir, uma subcategoria de humanos que “não deu certo”. Essa mentalidade, violenta e excludente, para não dizer tacanha, deve ser problematizada e desconstruída na escola e em sociedade.

A estrutura econômica, bem como o acesso privilegiado ao conhecimento de ponta, propiciará a estes alunos ocuparem cargos de prestígio, de poder — de status social. Isso não pode ser confundido com “dar certo”. 

Flávio Bortolozzi Junior é professor de Sociologia Jurídica e Criminologia da U. Positivo

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