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Nilcemar Nogueira: O Carnaval que queremos

Cabe ressaltar que o investimento aos desfiles das escolas de samba é imprescindível, mas há que ponderar as consequências da destinação descontrolada de aportes oriundos dos cofres públicos

Por thiago.antunes

Rio - O debate que se se apresenta acerca do modelo de financiamento dos desfiles das escolas de samba nos impulsiona a uma reflexão coletiva tardia sobre a relação de dependência institucionalizada entre as agremiações carnavalescas e o Estado.

É dever da Prefeitura do Rio de Janeiro e de outras instâncias de governo fomentar as manifestações culturais que preservem a nossa identidade. Cabe também ao Município incentivar o turismo com ações, programas ou projetos continuados, que potencializem a economia da cidade por meio da cadeia produtiva do Carnaval carioca.

Sendo o Rio de Janeiro a capital em que se organiza a maior festa popular do Brasil, que a eleva ao ranking dos destinos turísticos mais procurados no mundo, torna-se fundamental, portanto, a retomada da efetiva participação municipal no processo de conceituação e reordenamento da festa que, a cada ano, consome recursos extraordinários.

Cabe ressaltar que o investimento aos desfiles das escolas de samba é imprescindível, mas há que ponderar as consequências da destinação descontrolada de aportes oriundos dos cofres públicos.

A Prefeitura do Rio não propõe o corte de 50% do valor da subvenção para os desfiles do Sambódromo. Retoma-se o patamar de R$ 1 milhão que vinha sendo praticado até 2016, quando, diante da impossibilidade de os governos do Estado do Rio de Janeiro e federal investirem na folia, elevou-se o aporte, discricionariamente, para R$ 2 milhões.

A decisão da atual Administração se baseia em dados técnicos a partir dos apontamentos e estudos realizados pela Secretaria Municipal de Fazenda, Controladoria-Geral do Município e Fundação Getúlio Vargas sobre a situação financeira do Município, que em nada difere da realidade do Estado e da União.

A publicização inconsequente de uma suposta redução na subvenção aos desfiles, relacionando-a às convicções religiosas do prefeito Marcelo Crivella é, portanto, infundada e preconceituosa.

A discussão, ora levantada, deve-se pautar na histórica desestruturação administrativa do Carnaval do Sambódromo. Reconhecemos a importância da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) sem, no entanto, não deixarmos de destacar que o modelo organizacional implementado para os desfiles há muito precisa ser revisto.

Se por um lado o evento cresceu desenfreadamente do ponto de vista estético, por outro o sambista, guardião de nossos saberes tradicionais, foi se encolhendo, e os elementos culturais da festa, se esvaindo.

Até mesmo a população do Rio de Janeiro distanciou-se. Sem falar nos acidentes ocorridos na Avenida neste ano, que levaram à morte de uma jornalista, e no gigantismo desproporcional dos desfiles, que valoriza carros alegóricos em detrimento da vida dos foliões.

E o samba? Precisa ser valorizado prioritariamente, pois que é patrimônio cultural do Brasil. Ele está nos corpos que cantam, que dançam, que tocam. É chegado o momento de decidirmos o Carnaval que, de fato, queremos para o futuro.

Nilcemar Nogueira é secretária municipal de Cultura

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