Fernando Scarpa: Comédia no palco do Planalto

Evidências não são provas, e meliante acha sempre que é injustiçado

Por O Dia

Rio - É inegável que faz sofrer. Esgota a esperança ver políticos ludibriando a Justiça e a flexibilidade com que a lei os trata. A estratégia do Temer de descredenciar o inegável é velha, ressuscita JEC no impeachment de Vana: “Tem papel assinado que o presidente recebeu a mala do Loures? Sem corpo, não há crime!”

“Hoje tem espetáculo? Tem, sim, senhor!”, diz o palhaço no circo — e Temer, à nação. Entrou no picadeiro com incriminada tropa de choque, fisionomia séria, fez rir o país. Já atravessamos muitas crises, o mundo sempre viveu em crise, não será a saída de mais um presidente e entrada de outro que derrubará a nação. O próximo de plantão fará acordo com empresários e banqueiros, e a economia ficará estável. Não está fácil para ninguém, pior não fica.

Evidências não são provas, e meliante acha sempre que é injustiçado. STF, STJ e sei lá mais quem do Judiciário acabam penetrando pelas brechas da lei, e mais um meliante escapa da cela. Revoltado, o país grita, mas já sem forças para as ruas. Imobilizado, assiste ao espetáculo.

Apostam no cansaço, na memória curta e na quantidade das delações. Um escândalo sombreia o outro, banalizando a tragédia cotidiana. Lula está quieto. É certa a estratégia: Temer frita, é a hora dele, e segue o plantão de barbaridades.

Atormentados, buscamos saída, mas não adianta: o estoque de políticos tem defeito de corrupção. No Twitter, um rapaz da turma ‘fora Temer!’ elogia Hitler. Incrível a atitude do ‘militonto’. Esqueceu que o grande ditador saqueou objetos de artes dos países invadidos, dizimando a vida de milhões. Mas, no raciocínio do menino, corrupção e roubo, ele não praticou. Então merece aplauso? Não.

Rola o jogo, e FHC, em carta para Temer, pede renúncia, juízo e serenidade. É excitante o diálogo, negociando a mega-aposentadoria na calada da noite com a JBS. Uma pena. Com a delação, o presidente perdeu 30 anos de malas. Se pretende longevo o rapaz! A aposentadoria seria repassada ao herdeiro e esposa? É a comédia brasileira no palco do Planalto nesta temporada agitada de 2017.

Aguardemos os próximos espetáculos. A situação promete, os atores em cartaz estão afiados, e só resta desejar ‘merda’ para eles, como se diz no teatro.

Fernando Scarpa é psicanalista

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