Nelson Vasconcelos: Justiça não é para todos

Em meio ao nosso festival de roubalheiras, duas mulheres me vêm à lembrança. A primeira é a Adriana Ancelmo, patroa do ex-governador e ladrão Sérgio Cabral. A outra é a Claudia Cruz, do Eduardo Cunha

Por O Dia

Rio - Em meio ao nosso festival de roubalheiras, duas mulheres me vêm à lembrança. A primeira é a Adriana Ancelmo, patroa do ex-governador e ladrão Sérgio Cabral. A outra é a Claudia Cruz, do Eduardo Cunha, que também está cumprindo pena por pilantragem. Elas são dois símbolos de uma sociedade cínica, desfrutando uma vida de delícias por conta da sem-vergonhice que parece inerente ao exercício do poder.

Fico pensando se elas dormem direitinho. Ou se têm algum tipo de empatia pelas tantas mães que choram por causa da violência. Ou se sabem que muitas mulheres estão presas por furtar alimentos para os filhos.

É da lei. Pena que a lei não seja aplicada igualmente para todo mundo. Vale citar o exemplo do Jean Valjean. Por ter surrupiado um pão, ficou preso entre 1796 e 1815.

Dezenove anos sofrendo pra burro. A própria sociedade que o levou a roubar um pão aplicou a ele uma pena absurda. Como, então, tratar essa sociedade? O que se esperar de um povo que vive sob essa pressão? Alguma hora essas iniquidades têm que provocar uma explosão.

No caso de Jean Valjean, é fácil conferir como termina a história. Trata-se de um dos ‘heróis’ do imperdível ‘Os miseráveis’, de Victor Hugo. É um clássico que (desculpe o clichê) parece que foi escrito ontem. Mas não. Foi publicado em 1862 e tornou-se um retrato fundamental das desigualdades em que estamos metidos.

E veja você. Victor Hugo apresentou ‘Os miseráveis’ numa época em que líderes da política, da economia e da religião se misturavam de maneira perigosa — com a decisiva participação de um sistema jurídico injusto. Qualquer semelhança com a nossa realidade, portanto, não é mera coincidência. É um sinal de que a história, às vezes, se repete.

Fica a dica. Leitura fascinante. A mais recente edição tem um prefácio do Renato Janine Ribeiro muito rico. Ah, o livro tem mais de mil páginas? E desde quando isso é problema? Somos treinados a acompanhar novelas, ou não?

A propósito, é inevitável sugerir também ‘O ódio que você semeia’, da Angie Thomas, baita sucesso nos EUA. Conta a história da Starr, única testemunha do assassinato de um negro pela polícia. Ela e sua família sofrem ameaças, claro, mas correm atrás de justiça. Mais uma vez, qualquer semelhança com a nossa realidade não é mera coincidência.

Desde Jean Valjean, somos todos filhotes de um mesmo sistema social que não preza exatamente nem pela liberdade, nem pela igualdade, nem pela fraternidade. Por mais que preguem o contrário.

Nelson Vasconcelos é jornalista

Últimas de Opinião