Júlio Furtado: Tempo de estudo e aprendizagem

Disse não lembrar de ter sugerido “tempo de estudo” como referência de colégio de qualidade, no que me responderam ser essa uma referência própria da qual não abriam mão

Por O Dia

Rio - Um casal amigo pediu-me opinião enquanto educador sobre em qual escola deveriam matricular o filho na cidade em que foram morar. Sugeri a eles alguns critérios para que avaliassem e fizessem a melhor escolha segundo suas expectativas.

Ao encontrá-los recentemente, me disseram que a decisão se baseou principalmente porque tinha aulas em horário integral três vezes por semana, além de muitas tarefas para casa, o que mantinha o menino estudando o tempo todo. Disse não lembrar de ter sugerido “tempo de estudo” como referência de colégio de qualidade, no que me responderam ser essa uma referência própria da qual não abriam mão.

Fiquei pensando em como essa é uma verdade incontestável para a maioria das pessoas. Quanto mais tempo de aula e de estudo, melhor a escola. Na verdade, não existe nenhuma comprovação científica disso, nem do contrário. Em países tidos como excelência por seus sistemas educacionais, como a Finlândia e a Suíça, os alunos ficam menos tempo no colégio do que no Brasil. Na Finlândia, os alunos estudam, semanalmente, em média, 10 horas a menos do que no Brasil, com um agravante: lá não há dever de casa obrigatório.

Encontramos países que se destacam nos rankings mundiais de qualidade em Educação em que os alunos não têm tempo nem para respirar, como em Cingapura e na Coreia do Sul. Tenho a sensação de que quanto maior for a habilidade dos professores de motivar e levar os alunos a construir sentido sobre o que estudam, menor será a necessidade de tempo obrigatório de estudo, pois a vontade de buscar torna-se natural, e o dever de casa torna-se voluntário e prazeroso.

Podemos confrontar, então, maior tempo obrigatório de estudos bem orientado e menor tempo obrigatório de estudo com boa orientação didática e motivadora. Ambos os caminhos levam à aprendizagem, mas parece-me que o segundo produz aprendizagem mais autônoma e mais feliz.

Isso tudo me faz lembrar da meta do Plano Nacional de Educação de 50% dos alunos de escolas públicas estudarem em horário integral até 2024. O aumento do tempo precisa ser acompanhado pelo aumento da produtividade, em especial num país em que grande parte dos pais não tem tempo ou condições de orientar bem as crianças em casa.

Últimas de Opinião