Continentino Porto: Jamais haverá outro edifício como o 'Tancredo Neves'

Quando saiu do carro, já estávamos lá, e ele perguntou meio que constrangido: "Quer saber o que eu não disse?", ponderou, ainda na porta do prédio

Por O Dia

Rio - Transcorridos oito dias da eleição de janeiro de 1985, o presidente Tancredo Neves veio ao Rio de Janeiro e concedeu entrevista numa sala VIP do Aeroporto Santos Dumont enxameada de repórteres. Logo depois, seguiu sozinho para o número 2.016 da Avenida Atlântica, onde morava. Era o Edifício Golden Gate, batizado de 'Presidente Tancredo Neves'.

Quando saiu do carro, já estávamos lá, e ele perguntou meio que constrangido: "Quer saber o que eu não disse?", ponderou, ainda na porta do prédio. "Preciso dar algumas ligações e depois vou conversar com o Magalhães Pinto e o doutor Walter Moreira Sales (ambos moradores do mesmo prédio)." Subimos, e eu fiquei na biblioteca.

Meia hora depois, chegou bem humorado e alegre. O encontro dele com os dois devia ter trazido boas notícias. Então, antes de ele apontar o dedo para a porta do apartamento e seguirmos de volta para o aeroporto, me deu uma notícia em primeira mão: "Vou viajar durante 15 dias para os EUA, México, Espanha, Portugal e Argentina."

Nesta hora, misturei entusiasmo e encantamento diante do quadro do famoso pintor brasileiro Cândido Portinari, uma obra feita em 1961 especialmente para ele. E foi esse quadro que a Polícia Federal apreendeu com outras diversas obras no apartamento que estava sendo usado pela sua neta Andréa Neves, irmã do senador Aécio Neves.

Aproveitei na ocasião para revelar que tinha um quadro (pequeno) do mesmo valor da pintora Djanira, retratando Paraty, um presente do seu marido, Motinha. Esse quadro ficou com meu companheiro de apartamento, em Ipanema.

Na verdade, o antigo 'Golden Gate' sempre teve os holofotes acesos, pois lá se registraram vários acontecimentos políticos que marcaram a História da nossa República.

Quando as rodadas de pôquer não eram realizadas no apartamento do empresário Jadir Gomes de Souza, sócio da construtora Carioca Sisal (que está na Lava Jato), o local escolhido era o apartamento do casal José e Lúcia Pedroso, ele deputado federal.

Havia também o caso de amor com Juscelino Kubitschek, que durou eternamente...

Faziam parte da mesa de pôquer o então general Costa e Silva, o empresário Antonio Galoti, presidente da Light, e outros amantes da jogatina. Costa e Silva era, de fato, um viciado no jogo de pôquer e nas corridas de cavalo. Nas cartas, blefava sempre e, na maioria das vezes, perdia. Nos cavalos, tinha uma certa preferência pelos azarões.

O casal Pedroso sempre recebia os casais amigos em petit-comité. Num desses jantares, convidou o general Costa Silva, que foi acompanhado de Dona Yolanda. Ele e sua mulher ficaram impressionados com a recepção: mesa com toalha e guardanapos de cambraia de linho, faqueiro cromado, etc.

Meses depois, tomando o poder na crista da onda, como ministro da Guerra (hoje Exército), Costa e Silva recebe uma ligação de Pedroso: "Ministro, o comandante (Amaral Peixoto) me informa que estou na primeira lista de cassação. É verdade? Se for, preciso de sua proteção!" "Deputado", respondeu, "depois que vi seu apartamento, cheguei à conclusão de que, com o salário de parlamentar, não tem condições de morar naquele palacete. Infelizmente, não posso fazer nada. É uma decisão revolucionária."

No início da noite daquele dia, no programa radiofônico 'Hora do Brasil', era anunciada a cassação do mandado do deputado federal, pelo Estado do Rio de Janeiro, José Teixeira Pedroso. Saiu na primeira lista de cassação e da perda dos direitos políticos por 10 anos.

Continentino Porto é jornalista

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